 
Emma Darcy 
Seduo Irresistvel

Casada com o patro?
Por dois anos Annebelle Taylor se preocupou em manter distncia do chefe, 1 disputado solteiro.Porm, em uma manh, tudo mudou.O relacionamento, antes extremamente profissional, fugiu ao controle. E Annebelle percebeu que no dava para fingir que nada havia acontecido, por uma simples razo: estava esperando um filho de Christopher.
S havia uma sada: precisava colocar um casamento na agenda do chefe!

Ttulo: Seduo irresistvel  Autor: Emma Darcy
Ttulo original: The marriage decider
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1999  Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina  Reviso: Bruna  Estado da Obra: Corrigida

CAPTULO I

"Seu Homem Est Traindo Voc? Veja Aqui a Soluo de Seu Problema."

A manchete da capa de sua revista predileta causou nuseas em Annebelle Taylor. Era a recm-lanada edio de dezembro, e o possvel conselho dado na reportagem chegou tarde demais, e de nada ajudaria.
Uma pena que o artigo no tivesse sido escrito meses antes. Ela poderia ter percebido o que estava acontecendo com Steve e, pelo menos, estaria preparada para a notcia terrvel que tivera durante o final da semana.
Porm, a afirmao era duvidosa. No teria aplicado a soluo no relacionamento com Steve. Nenhum dos dois tinha inclinao ao casamento, pois eram espritos livres e no queriam assumir um compromisso. Porm, aps cinco anos de convivncia, Annebelle no conseguiu perceber o que estava acontecendo bem a sua frente.
"Somos espritos livres!" Annebelle cerrou os dentes ao se lembrar da frase que Steve costumava usar para justificar a relao que tinham. No havia liberdade alguma em decidir casar-se com outra mulher! A moa loira com quem ele saa enquanto morava com Annebelle o tinha envolvido de uma forma que chegava a ser insultante.
Como resultado da traio, o esprito de Annebelle  que ficaria liberto.
Ali estava ela, abandonada aos vinte e oito anos. Mais uma vez s e sofrendo de um mau humor nico. Era puro masoquismo pegar o exemplar com aquela matria. Estava se punindo, mas talvez fosse preciso ler tudo para ficar mais prevenida para a prxima vez. Isso se houvesse uma prxima vez...
Na idade em que estava, a possibilidade de encontrar um rapaz sem compromisso era muito restrita. Annebelle pensava no assunto ao pegar a revista e sair para descer a Alfred Street a caminho de seu escritrio, que ficava no ltimo prdio que dava de frente para o cais de Milsons Point, uma localizao privilegiada com uma vista linda, que Annebelle no estava disposta a apreciar naquela manh.
O sol que iluminava todo o cais de Sydney se refletia na gua do mar e dava vida aos barcos que cruzavam de um lado para o outro, deixando um rastro de espuma marcando o trajeto percorrido.
A esquerda de Annebelle, o Parque Bradfield oferecia um calmo e tranquilo gramado. No entanto, ela estava alheia ao cenrio natural que a rodeava. Para Annebelle s existiam idias tristes e pessimistas.
Fora trocada por uma garota esperta e grvida... Ningum mais engravidava por acidente. No uma mulher de trinta e dois anos.
Annebelle tinha certeza de que tudo no passara de uma armadilha bem-feita para prender Steve em um casamento de qualquer maneira. E dera certo. A data da cerimnia j estava marcada. Seria no ms seguinte, s vsperas do ano-novo.
Annebelle, com amargura, previu um grande perodo de solido.
Talvez quando tivesse trinta e dois anos, tambm ficasse desesperada para roubar o companheiro de outra mulher. Alm do mais, se ele concordasse como Steve concordou...
Mas como poderia confiar em algum que fosse capaz de trair a pessoa com quem vivia por tanto tempo?
Annebelle franziu o nariz. Estaria melhor sozinha, concluiu.
Porm, a constatao no a fez sentir-se melhor. Sentia-se perdida em um mundo que de repente parecia-lhe estranho e hostil. Sentia-se em pedaos.
Lgrimas encheram-lhe os olhos ao abrir a porta do prdio e entrar pelo saguo. Precisava da segurana do emprego para lutar contra o desespero que quase a dominava.
 Ol! O chefe j chegou?  perguntou a Kate Bradley, sem encarar a recepcionista.
Mesmo porque, Kate era uma bela loira, uma tpica escolha de Christopher Carter para aquele servio e tambm uma forte lembrana da jovem que a passou para trs.
 Ainda no, Annebelle. Algo deve ter acontecido para faz-lo atrasar-se.
Christopher costumava acordar cedo e sempre chegava antes de Annebelle, que ficou aliviada ao ouvir que ele se atrasara naquela manh. Assim, teria tempo para recompor-se antes que os astutos olhos cor de mel notassem algo.
Assim, na certa, no precisaria passar pela humilhao de ter de explicar a razo de o rmel estar borrado. O pranto deixara algumas manchas que precisavam ser eliminadas.
Annebelle apertou o boto do elevador, desejando que as portas se abrissem depressa, e que estivesse vazio.
 Teve um bom final de semana?  indagou Kate s costas de Annebelle, sem perceber nada de errado.
Annebelle virou um pouco o rosto, sem querer ser mal-educada.
	No. Foi horrvel  respondeu, deixando transparecer um pouco de seu estado emocional.
	Oh! Espero que tudo melhore.
	Eu tambm, Kate.
Ela foi direto para o andar que dividia com Christopher e dirigiu-se para o banheiro, a fim de reparar os efeitos de sua melancolia.
Uma vez em total privacidade, puxou alguns lenos de papel e comeou a limpar a maquiagem ao redor dos olhos.
No poderia ficar com aquela aparncia. Sendo assistente pessoal de Christopher Carter, precisava ficar acima de tudo e manter a imagem impecvel e de classe da companhia Wide Blue Ltda., que vendia seus servios para milionrios que no tinham tolerncia para erros ou trabalhos malfeitos. A perfeio era esperada de todos e para todos os clientes. Christopher deixava isso bem claro desde o comeo.
Annebelle trabalhava na firma fazia dois anos, e conhecia o patro muito bem. Nada escapava ao olhar dele. Seria necessria uma mscara de ferro para evitar que ele notasse que a assistente no estava bem.
Christopher era um excelente vendedor, esperto, atento a detalhes, e um observador de mulheres sem igual.
Decerto era solteiro e sem compromisso. A idia de ter um relacionamento fsico com o patro no passava despercebida pela mente de mulher alguma. Nem Annebelle deixou de imagin-lo uma vez ou outra em situaes diferentes das de trabalho.
No entanto, possua auto-estima suficiente para no se deixar usar para puro divertimento. Uma intimidade casual no a atraa.
Christopher tinha experincias com mulheres, e no relacionamentos. Quanto mais excitantes e quanto maior a variedade de casos, melhor. Para Annebelle, ele no se interessava de verdade por garota alguma. Elas iam e vinham com uma regularidade to grande que os nomes mal eram memorizados.
Apesar de as namoradas terem todas algo em comum, pois eram maravilhosas e faziam tudo para agradar Christopher, eram muito fceis. Ele no precisava procurar, era s escolher.
"Christopher, o sedutor", era como Annebelle o chamava. Pelo que via, Christopher nunca tivera um amor profundo em toda a vida. E o fato de manter um contato profissional era prioritrio para a manuteno de seu emprego. No precisava deixar-se influenciar ou at mesmo ser mais uma vtima do magnetismo de Christopher. Afinal, tinha Steve.
Bem... no o tinha mais.
Mais uma vez, lgrimas escorreram-lhe pelo rosto.
Annebelle olhou para a imagem desastrosa refletida no espelho, combatendo toda e qualquer defesa que passasse por sua cabea.
Talvez pudesse melhorar se pintasse os cabelos de loiro. O pensamento tolo quase a fez rir. Arqueou as sobrancelhas de forma enftica para retocar a pintura dos olhos azuis, chegando ao violeta. Sentiu-se uma estpida.
Alm do mais, gostava de seu tom castanho-escuro. Os fios eram grossos, e destacavam seus traos, que eram harmoniosos. Era feminina, o nariz, retilneo, o pescoo longo o bastante para usar qualquer jia sem medo, e tinha as curvas todas no lugar, com uma silhueta magra e elegante.
No havia nada de errado, concluiu Annebelle, decidida. Christopher Carter no a teria contratado se sua aparncia no fosse boa. Os clientes esperavam glamour; afinal, compravam e alugavam iates e avies de luxo.
A Wide Blue Ltda. satisfazia todos os desejos de pessoas influentes, e Christopher insistia e fazia questo de que todos os funcionrios tivessem uma excelente apresentao fsica e que fossem educados, assim como era exigente com tudo o mais que fosse relacionado  empresa. "A imagem", dizia ele, " essencial."
Apesar disso, Annebelle achava que Christopher buscava satisfao para si mesmo. No fazia segredos de que gostava do prazer proporcionado pela beleza feminina. Chamava a isso de classe, mas, sendo um sedutor nato, Annebelle tinha certeza de que aquela era uma forma de exercitar o direito de escolher um ambiente estimulante para seus sentidos.
Annebelle respirou fundo e devagar por vrias vezes. Abriu a bolsa, pegou um estojo de maquiagem de emergncia e comeou a tarefa, empenhada em criar uma forma de disfarar seu estado.
O atraso do chefe naquela manh podia ser considerado como um golpe de sorte para Annebelle. Agora, precisava encontrar uma maneira de tirar Steve e a noiva grvida da cabea e concentrar-se em fazer tudo o que fosse pedido por Christopher com a competncia habitual. Essa era a nica forma de evitar chamar a ateno dele.
Satisfeita com os resultados obtidos nas faces, Annebelle, guardou a estojo. Lavou e secou as mos e ajeitou a saia do vestido vermelho de linho que usava, desejando que o tecido no se amassasse com tanta facilidade. Porm, o modelo estava na moda, e a cor dava-lhe mais nimo. Pelo menos foi a concluso a que chegou ao escolh-lo antes de sair de casa. E tambm no poderia deixar guardada a pea que custara to caro.
O traje fora comprado na semana anterior para ser usado na festa de Natal do escritrio de Steve. Ao ver que no se arrumaria mais para o evento, decidiu us-lo.
Olhando-se de novo no espelho, chegou a arrepender-se, mas era tarde demais. Considerando a pea, Annebelle achou que talvez pudesse servir para distrair Christopher Carter e deixar passar despercebida sua tristeza.
A tenso de ter de encar-lo se amenizou ao chegar ao escritrio e encontr-lo vazio e sem sinal algum de que o chefe havia chegado. Intrigada com o atraso inusitado, Annebelle tambm ficou aliviada por ter tempo extra para concentrar-se em suas funes.
Sentou-se na cadeira e puxou-a para perto da mesa. Colocou a revista que comprara na ltima gaveta, bem fora de sua vista. Decidiu que s a leria em seu lar, quando estivesse a ss. O trabalho era a nica prioridade naquele momento.
Ligou o computador, conectou a Internet e abriu os e-mails que chegaram durante o final de semana. Comeava a imprimi-los para que Christopher pudesse analis-los quando ouviu as portas do elevador se abrindo no corredor junto dos escritrios.
Annebelle ficou com os nervos  flor da pele. Pensou em diversas maneiras de se explicar, caso ele notasse algo de errado.
Talvez Christopher passasse na sala dela para explicar o motivo do atraso e depois fosse para suas acomodaes pela porta que unia as duas salas. Aps um cumprimento rpido, poderia discutir a correspondncia com ele. Havia vrias questes a serem resolvidas. Quanto mais cedo comeassem a trabalhar, melhor seria.
Christopher tinha o hbito de fazer vrias indagaes s segundas-feiras de manh, e Annebelle queria evit-las. O final de semana deveria ser esquecido e no queria ningum comentando o ocorrido. No Christopher Carter.
Entretanto, se existia algo difcil para se conseguir era driblar a curiosidade dele. Uma vez desejando mais informaes, Carter fazia um verdadeiro interrogatrio. Era muito esperto.
Nervosa, Annebelle manteve o olhar focalizado na impressora para no deixar sua vulnerabilidade entregar-se diante do carisma do patro.
Sem precisar fit-lo, podia v-lo entrando. Um homem alto, forte, musculoso, de pele bronzeada, cheio de charme, com um leve sorriso acentuando a sensualidade da boca, que combinava fora e provocao. Um brilho especial o tornava fascinante, e os cabelos escuros e sedosos traziam alguns fios prateados, o que proporcionavam um ar de maturidade que encorajava as mulheres a confiarem nele, apesar de Annebelle saber que Christopher s tinha trinta e quatro anos.
Ela achava que em at mesmo duas dcadas ele no mudaria. Continuaria despedaando coraes femininos. Era um poder de atrao muito forte, e Annebelle reafirmou sua opinio ao erguer o rosto para cumpriment-lo.
A ateno desviou-se para o que Christopher estava carregando. Era um beb-conforto.
Annebelle ficou chocada.
Christopher, o sedutor, com um beb?!
As palavras de Steve pedindo compreenso voltaram  memria de Annebelle... Responsabilidade, compromisso, direitos de uma criana, ser pai em tempo integral...
Christopher, o sedutor, no mesmo time?
Annebelle ficou atordoada.
 No acha que combino com a paternidade?  O tom alegre da voz sexy fez com que Annebelle o encarasse.
Christopher gargalhou diante da expresso confusa de sua assistente, enquanto colocava o beb-conforto sobre a mesa dela.
  lindo, no ?
Annebelle virou a cadeira e levantou-se, olhando para o que parecia ser uma criana adormecida. S a cabea e as mos estavam visveis, pois uma manta cobria o nen. Annebelle no sabia qual a idade do pequeno, mas no parecia ser um recm-nascido.
 Ele ... seu?
Christopher sorriu, divertindo-se por ter provocado a falta de compostura da funcionria.
 Mais ou menos, Annebelle.
No mesmo instante, ela aceitou a brincadeira. O ressentimento a fez perder o controle e reviver a dor por ter de aceitar a deciso de Steve de assumir um filho e casar-se com outra mulher.
	Parabns, Christopher! Presumo que a me esteja muito feliz com essa situao.
	Ah!  Apontou o dedo indicador para ela, divertindo-se cada vez mais com o que via.  Sua pssima opinio a meu respeito  evidente, Annebelle. E injusta.
"Que absurdo!" Annebelle fitou-o, sria, disposta a deix-lo frustrado.
	Desculpe-me. No tenho nada a ver com sua vida pessoal.
	A me de Joshua confia muito em mim.
	Isso  timo!
	Ela sabe que pode contar comigo em uma emergncia.
	Sim. Voc  sempre muito prestativo e est sempre disposto a ajudar.
Christopher achou graa da ironia de Annebelle.
Percebo que j se recobrou do susto, mas a deixei sem palavras h alguns minutos.
Quer que eu fique sem palavras com mais frequncia?
Que graa teria se fosse algo comum?
Annebelle ficou em silncio. Christopher respirou fundo.
 Est determinada a me deixar frustrado, no ? Desafios so um tempero da vida para mim, Annebelle.
Ela ignorou o comentrio.
	Est bem, eu desisto. Joshua  de minha irm, Ruth. Ela teve uma srie de problemas esta manh. Meu cunhado deslocou o ombro jogando squash. Ruth precisou lev-lo ao hospital, e fui o escolhido para cuidar do beb. Ento, trouxe meu sobrinho para c. Ruth vir peg-lo assim que puder.
	Voc  o tio do garoto?
	E tambm o padrinho.  O sorriso provocante voltou.  O que est vendo a sua frente  uma dupla de belos homens da mesma famlia. Vou deix-lo aqui.
Christopher ergueu o beb-conforto e colocou-o ao lado do armrio de arquivos.
 Joshua dorme bem. Saiu do carro e veio sem reclamar, ou mesmo se mexer.
Annebelle fitou o pequeno ser, resultado de um momento de intimidade entre um homem e uma mulher, uma ligao que continuaria para sempre, qualquer que fosse a deciso dos pais. Havia um lao que no podia ser quebrado: um filho.
Todo o corpo de Annebelle estremeceu. Procurou afastar a angstia que a dominava. Estava desapontada porque Steve a deixara para se casar com outra mulher. Os anos que passaram juntos no significavam nada comparados a uma criana. O namorado tinha escondido sua infidelidade, e Annebelle nem suspeitara que estava sendo trada. Fora um nen que pusera fim aos cinco anos de convivncia... O filho que uma vigarista iria ter. Uma parte de Steve que jamais poderia ser esquecida ou deixada de lado.
Annebelle no podia culp-lo por ter assumido a responsabilidade, porm estava muito magoada.
Uma beb merecia ter um pai.
Mas a traio, tudo o que os dois tinham vivido juntos, a feriu muito.
 Esta  a correspondncia de hoje?
Annebelle no tinha percebido Christopher ao lado de sua mesa. A pergunta a fez virar depressa a cabea para v-lo pegar as folhas que ainda estavam na impressora.
	Sim.
	Vou levar para meu escritrio.  Christopher acenou para o sobrinho.  Tem uma mamadeira e algumas fraldas descartveis na sacola. Acho que no ter problemas.
Que arrogncia! Ento, ela  que teria de cuidar do garotinho!
O ressentimento tomou conta de Annebelle mais uma vez.
Ao abrir a porta, Christopher parou e olhou para trs. Estava muito elegante, usando um terno cinza. Esbanjava segurana e trazia um sorriso tentador.
 A propsito, voc fica muito bem de vermelho, Annebelle. Deveria usar mais essa cor.  E se afastou.
Annebelle enxergava tudo vermelho. O corao parecia bater descompassado, e o crebro iria estourar a qualquer momento.
Se Christopher apreciava v-la perder a compostura, tambm deveria divertir-se com o que estava por vir. Ela no cuidaria do beb de ningum. Aquela criana no tinha nenhuma ligao com ela. No fazia parte de suas funes. E, naquele dia em especial, no precisava de nada que a lembrasse da perda que sofrera.
Christopher Carter  quem deveria cuidar de seu belo sobrinho. Afinal, era o padrinho.
Annebelle olhou para Joshua, que ainda dormia, calmo, alheio a toda a turbulncia de emoes que a dominavam.
Consternada, observou a sacola plstica. A estampa do material trazia os personagens Disney.
Annebelle decidiu que Christopher  quem deveria divertir-se com o pimpolho. O jogo chegara ao fim, e ela no se importava se seria ou no demitida. Na verdade, se Carter tentasse pression-la a ficar com o nen, ela  quem pediria demisso.
Talvez essa fosse uma nova experincia para Christopher: ser contrariado por uma mulher. Mas no havia outra sada.
Annebelle sorriu. Daria um carto vermelho a Christopher Carter. Gostasse ele ou no.

CAPTULO II

Annebelle entrou decidida no escritrio de Christopher desejando que o beb-conforto que trazia balanando nas mos fosse uma lana que pudesse atingi-lo. Ficou ainda mais furiosa ao encontr-lo de costas, com a cadeira virada para a janela, de onde tinha uma vista panormica do cais, com as mos cruzadas na nuca.
Nenhum trabalho estava sendo feito. A correspondncia que ela imprimira ainda se encontrava sobre a bandeja.
Christopher parecia estar relembrando os prazeres que, sem nenhuma dvida, deveria ter tido durante o final de semana. Enquanto isso, Annebelle enfrentava um problema atrs do outro.
No era justo!
De jeito nenhum!
O que poderia fazer, entretanto? Faz-lo assumir o compromisso, honrar a prpria palavra?
A entrada sbita o fez virar-se, confuso, sem compreender o que estava acontecendo.
 Algum problema, Annebelle?
"Bem-vindo ao mundo!", pensou ela, marchando direto at ele para colocar a criana sobre o tampo.
Annebelle precisou tomar cuidado para no esbarrar nos ps de Christopher. No queria acordar o beb, que no tinha culpa de o tio ser um chauvinista.
Fascinado com a viso de sua assistente pessoal, sempre muito equilibrada, estar com os nervos  flor da pele, Christopher continuou olhando-a perplexo. Annebelle estava muito bonita e pronta para abrir fogo contra ele.
 Este beb  sua responsabilidade.  A voz de Annebelle titubeou e ficou um pouco rouca, o que prejudicou um pouco a autoridade necessria para o momento.
Sem desistir, contudo, engoliu em seco e continuou a falar com mais fora:
 Sua irm elegeu voc para ser bab de seu sobrinho.  Esboou um sorriso capaz de transformar a Medusa em pedra. Devia ter funcionado, porque ele ficou imvel e mudo.  Ruth confia muito em voc. Tambm no  de admirar, pois  o padrinho de Joshua. Fazem parte de uma bela famlia de homens, no ?
Annebelle ficou muito satisfeita por poder repetir a frase mudando as posies do jogo, e ainda mais contente por v-lo perdido, sem ter o que dizer.
"Bem-vindo ao clube, meu caro", pensou ela.
 Cuidar de seu sobrinho no faz parte de meu trabalho, Christopher. Contrate algum que seja especialista em pajear crianas, se no pode fazer tudo sozinho. Nesse meio tempo, ele  todo seu.
Annebelle virou-se depressa e dirigiu-se  sada, de espinha ereta, ombros para trs e cabea erguida. Se Christopher Carter tentasse faz-la mudar de opinio, ela o atacaria de novo.
Porm, nem um som foi ouvido.
O silncio se fez at o momento em que ela girou a maaneta.
Annebelle no olhou para trs. Saiu decidida, sem hesitar.
No momento em que fechou a porta e viu-se sozinha no prprio escritrio foi que caiu em si. Experimentou a mesma sensao de vazio aps Steve sair de casa.
Fechou os olhos ao pensar no que acabara de fazer. Estava prestes a perder o emprego.
Perderia tudo o que tinha.
O dia comeara mal e ainda no havia terminado.

CAPTULO III

Annebelle perdeu a noo de tempo. Viu-se diante da mesa e no se lembrava do momento em que se sentara na cadeira. Sentia-se como se tivesse pressionado um boto de autodestruio e todo seu mundo houvesse sado de controle e ficado de cabea para baixo.
Vingana... Foi o que tinha descarregado em Christopher Carter. Fez com que ele pagasse pelo que Steve fizera. E no tinha o direito de agir dessa forma.
Uma assistente pessoal deveria assisti-lo pessoalmente. Para isso  que era paga. Em outro dia qualquer, no teria nem vacilado. No se incomodaria se um menino fosse deixado em suas mos. Teria aceitado a tarefa sem nem sequer pensar em um protesto, aceitando o fato de que Christopher, o sedutor, no quereria se incomodar com um nen.
Alm do mais, durante as horas de expediente, as preocupaes dele eram mais importantes que as dela. Era Christopher quem fechava os negcios e era responsvel pela empresa.
Annebelle inclinou-se para a frente, colocou o cotovelo sobre o tampo e o rosto entre as mos. Haveria alguma forma de ela sair da confuso em que se metera?
No podia arriscar ficar desempregada. No agora que no tinha mais Steve a seu lado, que estava sozinha. Com a sada dele, todo o aluguel ficaria por sua conta, a menos que encontrasse logo algum para dividir o apartamento e as despesas. No entanto, as semanas que antecediam o Natal no eram um perodo propcio para mudanas.
Alm do mais, quem pagaria o mesmo salrio que Christopher? Ele era mais que generoso para as qualificaes que Annebelle tinha. E tambm perderia as vantagens de conhecer e fazer negcios para pessoas ricas.
Ergueu o olhar e analisou as fotografias penduradas na parede. Eram celebridades em seus luxuosos iates, a bordo de jatos particulares, viajando com estilo para lugares excelentes e jantando em ambientes cheios de classe.
Evidente que Christopher estava em todas as fotos, mostrando qual era sua clientela e quais os servios com que trabalhava. Era um excelente homem de negcios. Aqueles retratos eram provas de que merecia tudo o que conseguira na vida.
A verdade era que, mesmo com as provocaes de Christopher, com seu jeito brincalho, Annebelle gostava do desafio de estar sempre  altura do patro. Fazia de tudo para desempenhar seu trabalho da melhor forma possvel, e assim as tarefas nunca ficavam cansativas.
Annebelle sentiria falta de Christopher.
Muita...
Ainda mais agora, que no tinha mais Steve.
Sentiria saudade do escritrio tambm. Onde mais conseguiria um lugar to bonito e agradvel quanto a Wide Blue?
Olhou ao redor, analisando tudo o que perderia. O carpete de cor turquesa, as paredes pintadas de amarelo-claro, quase no tom da areia da praia, e as molduras das portas e janelas todas brancas. Arranjos de flores tropicais eram trocados toda semana. Havia botes exticos em tons alaranjados misturados com folhagem verde. O equipamento com a mais avanada tecnologia estava  disposio de todos. Nenhuma economia era feita para que Annebelle tivesse tudo do bom e do melhor.
E tambm havia aquela preciosa vista, uma extenso da de Christopher, onde podia ver o Cais Darling Balmain e, do outro lado, Goat Island, e seguindo mais adiante, Luna Park, com o colorido de um parque de diverses e espetculos populares.
Mortificada pela atitude luntica que tomara sem considerar as consequncias ao enfrentar Christopher, Annebelle empurrou a cadeira e foi at a vidraa. O que mais lhe chamou a ateno foi o rosto sorridente do palhao desenhado na placa do Luna Park. Ele prometia muito divertimento. Assim como Christopher. Porm, ela estragara toda a agenda do dia ao agir de forma intempestiva.
Depois de algum tempo, Annebelle decidiu que deveria voltar ao escritrio dele e pedir desculpas.
Porm, como explicaria seu comportamento? Nunca tivera uma atitude to rude e precipitada.
Christopher deveria estar sentado l dentro imaginando o significado de toda aquela cena. Ele no deixaria tudo passar em branco, sem explicaes. No Christopher Carter. No ficaria satisfeito. Se estivesse ponderando demiti-la por insubordinao, teria motivos para tal. Ou talvez buscasse tirar vantagens...
Annebelle estremeceu.
Se Christopher resolvesse ser maquiavlico, encontraria milhares de idias para espica-la e se aproveitar da situao. Annebelle j o vira agir assim vrias vezes.
O som da porta entre os escritrios a fez perder a linha de raciocnio, e Annebelle ficou ansiosa. O pnico chegou a domin-la, e o corao disparou. Achou que era tarde demais para tomar alguma iniciativa que a salvasse. Sem saber como agir, encarou o homem que tinha seu futuro nas mos.
Christopher ficou em p  soleira comandando a ateno dela com a simples presena. A ausncia de um sorriso confortador chegava a causar dor no estmago de Annebelle.
Em silncio, o chefe ficou a observ-la por tensos e longos segundos, encarando-a com intensidade.
Annebelle tentou forar-se a dizer algo que desse chance a um dilogo e que amenizasse o que tinha feito, porm no conseguiu desgrudar a lngua do cu da boca.
 Sinto muito...
Palavras doces? Palavras que ela poderia ter dito!
Annebelle ficou mirando a boca de Christopher. Ele teria mesmo dito aquilo, ou fazia parte da imaginao dela?
Como poderia cogitar um pedido de desculpas se no o achava culpado?
Os lbios de Christopher relaxaram.
 Eu no agi bem, deixando Joshua sob sua responsabilidade, empurrando para voc o meu dever.
Incrdula, ela continuou calada. Um sorriso largo e tentador tomou conta da expresso de Christopher.
 Acho que pensei que todas as mulheres se derretessem com bebs. No quis que parecesse uma imposio, e sim, uma novidade.
Annebelle sentiu-se egosta.
 Eu... exagerei  murmurou.
Christopher deu de ombros.
 Como no percebi antes? Bem, voc fala to pouco de sua vida particular que... Deve haver um motivo para no ter se casado com o homem com quem namora h cinco anos.  As sobrancelhas se ergueram, demonstrando preocupao.  Tem problemas para engravidar?
O tom usado por Christopher e seu interesse deixaram Annebelle sem defesas. Seus olhos se encheram de lgrimas, e no conseguiu evitar que elas escorressem. Teve vontade de dizer que ele no tinha culpa, mas o n na garganta a impediu.
Percebeu o choque de Christopher Carter, que veio em sua direo e, em seguida, abraou-a.
De repente, viu-se chorando junto de Christopher, que tentava consol-la.
	Eu no quis... De verdade, Annebelle! S estava procurando entender. Nunca achei que fosse verdade.
	E no .  Annebelle conseguiu organizar uma resposta enquanto soluava com as mos amparadas no peito dele.
 No?
A dvida parecia ecoar nos ouvidos de Annebelle. Ela no suportava a idia de Christopher pensar que era estril, fazendo-a sentir-se ainda menos mulher do que quando Steve a abandonara. Relutante, respirou fundo.
	Ele no quis ter um filho comigo, Christopher.
	No quis?!
	Mas desejou t-lo com outra.
	Seu namorado engravidou outra garota?!
A surpresa de Christopher era to forte e evidente que chegou a fazer bem para a auto-estima de Annebelle.
	Pelo menos ela  bonita...
	Espero que o tenha mandado para bem longe no mesmo instante, Annebelle.
	Sim  Annebelle mentiu.
Era muito humilhante confessar que ficara sentada como uma tola enquanto Steve fazia as malas e dividia tudo o que tinham adquirido durante o longo perodo de convivncia.
	Isso mesmo! No seria bom ter um beb com ele, Annebelle. O tal sujeito no  um homem confivel para se ter ao lado.
	Agora sei disso  concordou, tristonha, sem vontade de ir alm no assunto.
	Ainda se sente trada e injustiada, no ?
	Sim.
	Presumo que soube de tudo durante este final de semana.
	Steve me contou tudo no sbado.
 E eu cheguei aqui e coloquei Joshua a sua frente.
A auto-recriminao levou-a a encar-lo.
 Voc no teve culpa, Christopher, no sabia de nada. Eu  que devo me desculpar.
 No se preocupe, Annebelle. Tudo j passou.
Christopher estava sendo compreensivo e simptico, fazendo-a sentir-se mais segura, protegida e valorizada.
O toque suave dele espalhava um gostoso calor por todo o corpo de Annebelle, que sentiu as mos mais relaxadas sobre o trax largo. Nesse momento, encostou a cabea em seu ombro, e Christopher afagou-lhe os cabelos.
Annebelle aproveitou cada minuto da carinhosa compaixo, pois precisava e desejava conforto. Estivera muito sozinha nos dois ltimos dias, carente e precisando que algum se preocupasse com seu bem-estar.
Um choro de beb interrompeu o agradvel momento de ternura.
Joshua fora deixado sozinho na outra sala! Annebelle relutava em desvencilhar-se do abrao de Christopher, porm, no poderia ficar por mais tempo ali. Afinal, aquele era um lugar de trabalho.
	Acho que a responsabilidade me chama.  Christopher segurava-a pela cintura com uma das mos. Com a outra, ergueu-lhe o queixo.  Est mais calma?
	Estou tima de novo.  Sorriu.
	Que bom!  A expresso de solidariedade transformou-se em entusiasmo.   melhor ir ao toalete. A lembrana daquele homem deve deixar sua fisionomia, assim como seus pensamentos.
Em resumo, a aparncia de Annebelle estava horrvel, e Christopher queria de volta a antiga assistente pessoal em excelente forma.
Era bvio que era s isso o que desejava. Christopher Carter era esperto o bastante para no misturar negcios com prazeres que podia conseguir em qualquer outro lugar.
Ainda demonstrando ateno, Christopher passou os dedos pelo rosto de Annebelle.
 Est certo?
Ela sentiu o rosto quente e corado.
 Sim...
Aps um sorriso desconcertante, Christopher virou-se.
 Preciso ir ver Joshua.
Christopher j estava  soleira quando Annebelle conseguiu dizer:
	Obrigada.
	Pode contar comigo sempre que precisar. Meus ombros so largos  brincou, demonstrando o bom humor usual, enquanto andava para o escritrio ao encontro do sobrinho.
Annebelle respirou fundo vrias vezes para restabelecer o equilbrio, e em seguida forou as pernas a se mexerem. Apanhou a bolsa e foi para o banheiro, determinada a agir e apresentar-se de forma que agradasse a Christopher. No se esqueceria da gentileza e solidariedade demonstradas, nem do suporte moral que o chefe lhe dera. Christopher tinha agido como um amigo, leal e solidrio.
Porm, no deveria exagerar em suas expectativas. Christopher Carter era o patro. Melhor seria tentar fazer com que a antiga assistente pessoal recobrasse o equilbrio que contratar e treinar outra pessoa que desempenhasse a mesma funo. Annebelle conhecia bem Christopher. Ele fazia todo o possvel e necessrio para conseguir resultados.
Apreciava a sensibilidade dele a seu sofrimento. E Christopher estava certo. Annebelle no podia ficar pensando em um homem que a trara. Deveria parar de se torturar e comear a reconstruir sua vida.
Era fcil falar, mas agir... No! Tinha de ser mais otimista. Pelo menos ainda tinha o emprego. No chegara at o fundo do poo, graas a Deus!
Provando a si mesma que estava controlada, conseguiu parar de tremer, e mais uma vez retocou a maquiagem.
Depois, com mais domnio das emoes, foi para o escritrio de Christopher determinada a oferecer o auxlio que fosse necessrio. Afinal, Joshua no era filho de Steve. Podia cuidar dele sem problemas.
Faria isso por Christopher. Era funcionria dele havia dois anos, e nada iria mudar. S precisava manter as idias no lugar e no se aproximar demais dele outra vez. O relacionamento deveria continuar baseado s nos negcios.

CAPTULO IV

Christopher deixara a porta do escritrio aberta, e Annebelle parou ao batente antes de entrar, entretida com o tom que ele usava para falar com o beb.
 Estamos na reta final, Josh. Ah, sim, vamos chegando l, garoto! E Annebelle Taylor est como queremos. Ou melhor, quase.
O sorriso desapareceu do rosto de Annebelle ao ouvir as ltimas palavras. Christopher Carter sempre tirava vantagens do que lhe caa nas mos. Sempre. Era o estilo dele. De uma forma ou de outra, iria se utilizar da falta de profissionalismo dela.
 E no onde gostaramos que ela estivesse  continuou Christopher.
Annebelle estava disposta a mostrar que um simples escorrego no a tornava uma m profissional.
 Ser necessrio um pouco de pacincia, Josh.  s uma questo de jeito. Voc  um bom companheiro. Permanea quieto.
Sem a certeza de que Christopher se referia a ela de forma negativa, Annebelle adentrou no escritrio decidida a entrar em cena. O beb-conforto estava no cho, e Joshua, deitado sobre um trocador de pano em cima da mesa. As perninhas se mexiam, desordenadas, enquanto Christopher, triunfante, jogava a fralda descartvel suja no cesto de lixo dentro de um saco plstico.
 Pronto, sobrinho! Est limpo!
Decidindo ser seguro interromper, deixando claro que estivera escutando a conversa, Annebelle aproximou-se para oferecer ajuda, agindo como se determinara a fazer.
 Quer que eu termine?
Christopher olhou para ela, alegre.
 No. Tudo j foi resolvido.  Segurou o menino pelos tornozelos e ergueu-o para colocar a fralda limpa no lugar.  E s pr as fitas adesivas aqui.
Como Annebelle nunca havia feito aquilo, agradeceu as cus por Christopher ter alguma experincia. Chegava a ser fascinante v-lo lidar com os apetrechos no garoto, que se mexia sem parar.
	Voc poderia esquentar o leite para mim?  Christopher apontou para a sacola.  Ruth disse que  s colocar no microondas por trinta segundos.
	Tudo bem.
Feliz por ter conseguido uma tarefa fcil, Annebelle procurou a mamadeira e apressou-se para a pequena cozinha onde costumava preparar ch de manh ou  tarde para os clientes.
Por no saber qual a temperatura a ser colocada no forno, decidiu que a mdia daria certo, e marcou o tempo necessrio. Ao pegar a mamadeira de volta, deixou pingar uma gota na palma da mo para certificar-se de que no estava quente demais e levou-a para Christopher com a sensao de ter cumprido sua misso.
Joshua estava trocado e sendo carregado pelo tio, que lhe acariciava as costas. Annebelle lembrou-se de que, pouco tempo antes, tambm estivera encostada naquele corpo forte. Sentiu remorso por ter recusado ajud-lo com o afilhado e quis oferecer-se para fazer o que quer que fosse. Alm do mais, no desejava problemas com Christopher. Era o patro, detinha o poder, e Annebelle sabia muito bem lidar com ele.
 Posso lev-lo para minha sala e aliment-lo, Christopher.
 Obrigado, mas  minha responsabilidade.  Estendeu a mo para pegar a mamadeira.
Annebelle tentou disfarar o constrangimento. Christopher repetia os argumentos dela.
	Voc pode ler as correspondncias enquanto cuido de Josh. Ditarei as respostas necessrias ou darei as instrues do que deve ser feito.
	Est bem.  Annebelle dirigiu-se para sua escrivaninha, de onde pegou um bloco de anotaes, determinada a no cometer erros de novo.
Christopher j tinha muitos argumentos contra ela. Se decidisse us-los...
Seu chefe era um homem muito esperto e inteligente. Annebelle nunca lhe confiara informaes pessoais, suspeitando que, de alguma forma, Christopher viesse a ter ainda mais poder sobre ela. Desde o primeiro instante em que passaram a conviver na Wide, ela resistira, seguindo os prprios instintos, ao forte magnetismo dele, que parecia sugar as pessoas, em especial as mulheres.
Annebelle era paga para ser muito cautelosa em relao a Christopher Carter.
Adotou uma postura profissional, sentando-se na frente da mesa, preparando-se para ler as cartas e e-mails.
Entretanto, apesar da resoluo sensata de manter-se distante e resguardada, viu-se, na meia hora seguinte, perdendo por vezes a concentrao no que fazia.
Christopher estava encostado na cadeira, bastante relaxado, com os ps apoiados na extremidade da escrivaninha, segurando o sobrinho no colo. Agia de forma natural, como se tivesse bastante prtica em cuidar dele. Chegou at a interromper o processo de dar mamadeira colocando o menino de costas em seu ombro para que ele soltasse o excesso de ar.
Annebelle no teria nem cogitado a hiptese de ter agido de tal forma. Nem ao menos sabia que aquilo deveria ser feito.
 Bom garoto!  elogiou Christopher logo depois que ouviu dois pequenos arrotos. Em seguida, voltou a deitar o beb nos braos para que terminasse de mamar.
Annebelle estava pasma. Talvez, por mais improvvel que pudesse parecer, Christopher fosse um homem dedicado  famlia dele. Ou a segurana demonstrada se estendesse a tudo com que se envolvesse.
Engraado... Annebelle poderia jurar que o patro sedutor no tinha o menor jeito nem vontade de lidar com crianas. No entanto, naquela manh estava descobrindo muitas outras caractersticas da personalidade dele. E, diga-se de passagem, muitssimo agradveis.
Ao terminarem de responder  ltima correspondncia, Annebelle viu-se relutante em deixar a cena ntima e familiar que se formava. Foi Christopher quem a questionou, erguendo as sobrancelhas diante de seu silncio.
	Terminamos?
	Sim.
	Falta algum assunto?
	No.  Annebelle levantou-se e juntou as notas que tomara.
Christopher sorriu para ela.
 Se tiver algum problema, pode contar comigo.
 Obrigada.  Annebelle retribuiu o sorriso sem reservas.
Foi s quando ela voltou a seu escritrio e fechou a porta que separava as duas salas que percebeu o quanto sentia-se melhor. A traio de Steve parecia estar mais distante e menos dolorida. Podia afirmar que at sentia-se mais confiante.
Ser que teria reparado a injustia que cometera com o patro?
Teria a lealdade a Steve feito com que Annebelle atribusse a Christopher Carter um papel de um homem ameaador e perigoso, capaz de arruinar os valores de uma vida que ela tanto prezava? Naquele momento, s tinha uma certeza: no devia lealdade alguma a Steve.
Mas tambm encontraria muita confuso, se decidisse esquecer as razes de ter apelidado Christopher de sedutor.
Annebelle se ps a trabalhar seguindo as instrues dele. A concentrao era to intensa que no ouviu o elevador abrindo as portas no andar dos escritrios. O som de algum batendo  porta chegou a assust-la. Ao olhar para a frente, deparou com uma mulher entrando na sala. Era alta, com cabelos encaracolados e ruivos, e esbanjava confiana pela forma como se apresentava.
Annebelle notou de imediato uma certa estranheza. As namoradas de Christopher costumavam entrar como se fossem donas do lugar. Aquela era diferente.
Sexy e elegante, tinha pernas longas, seios fartos e um rosto que poderia ser capa de qualquer revista de moda. Os cabelos deixavam evidentes o toque de algum profissional de categoria. O corte era sofisticado e curto. Usava cala jeans justa e um top que deixava uma parte do ventre de fora.
 Ol! Eu sou Ruth Powell, a irm de Christopher.
Annebelle ficou surpresa. No havia semelhana alguma entre eles. Se no tivesse visto o sobrinho de Christopher naquela manh, teria suspeitado da veracidade da frase. Algumas mulheres usam qualquer desculpa para conseguir chegar perto do homem que desejam.
	Voc  Annebelle Taylor?
	Sim.  Ficou curiosa de saber o que significava o olhar vido e o tom de voz usado.
Um sorriso demonstrando satisfao tomou conta das belas feies de Ruth.
 Ah, sei...
Perplexa, Annebelle perguntou:
	Sabe o qu?
	A razo de estar sempre presente nas conversas de Christopher.
	E estou?  Annebelle se espantou.
	Tanto que a famlia a chama de Mulher Maravilha.
Annebelle sentiu as faces corarem, ao sentir peso na conscincia por ter dado um apelido a Christopher nada simptico.
	Na verdade, no sabamos se era algo parecido com um drago capaz de mant-lo na linha. Agora posso contar a todos que seu segredo  ser irlandesa.
	Mas no sou irlandesa.  Annebelle j se sentia um pouco mais  vontade.
	Claro que .  Ruth aproximou-se, gesticulando com as mos.  Tem a cabeleira, os olhos e o esprito irlands. Analisou-me por um minuto quando cheguei. Existe muito poder nesses olhos azuis.
	Sinto muito se fui rude  adiantou-se Annebelle, procurando uma forma de lidar com o estranho encontro.
	No foi nada. Poderamos chamar o incidente de revelao. Voc deve ter Christopher sob domnio.  Ruth riu com um prazer evidente.  Que maravilha! Era mesmo do que ele precisava.
Annebelle ficou quieta, mas no deixou de achar aquilo tudo um absurdo. Imagine dominar Christopher Carter! Ele tinha mulheres suficientes para no se incomodar com ningum. Mas deveria estar um pouco frustrado por no ter conseguido seduzi-la.
"Annebelle Taylor est como queremos..." As insinuaes de repente se carregaram de um significado extra.
Com Steve fora de questo...
Abraara Christopher procurando conforto...
Ainda no estava na cama dele, porm!
Annebelle fechou os olhos diante das recentes concluses. A imaginao comeava a ir longe demais. A irm de Christopher gostava de brincar e provocar as pessoas da mesma forma que ele. Nenhum dos dois devia ser levado a srio, e era melhor colocar um ponto final em toda a histria.
	Acho que...
	Ora, no fique acanhada!  Ruth mexia as mos bem cuidadas por uma manicure.  Tenho a lngua solta demais. Bem, achei que o problema de Martin fosse mais srio. Fiquei em pnico, imaginado o que poderia ou no ter acontecido.
Martin... Deveria ser o marido dela.
	O ombro dele est bem?  quis saber Annebelle ao lembrar-se de que ele o havia deslocado.
	O mdico o recolocou no lugar. Agora dorme sob efeito da anestesia, ento decidi vir buscar Josh.  O olhar de Ruth vasculhou o ambiente, e ela franziu a testa quando no avistou o beb-conforto.  Onde est meu filho?
	Com Christopher.  Annebelle indicou a porta da outra sala.
Ruth fitou-a, surpresa.
 Quer dizer que meu irmo no pediu que voc cuidasse de Josh?
Annebelle achou graa.
	Tivemos alguns contratempos, mas como acho que confiou o beb a ele...
	Voc insistiu para que cuidasse do sobrinho?  Os olhos de Ruth brilharam, com admirao.
	Espero que no tenha agido mal. Christopher se saiu muito bem com a tarefa.
Ruth comeou a gargalhar, e sua expresso demonstrava que adorara a novidade.
	Voc  maravilhosa, Annebelle! Estou muito feliz por conhec-la. E a propsito: Christopher  muito bom com crianas e animais. Eles se aproximam naturalmente de meu irmo. Assim como as mulheres. Tenho certeza de que j reparou nisso.
	 difcil no reparar...
	E  muito acomodado com a situao.
Ruth estava certa, mas Annebelle decidiu que um suporte moral era necessrio.
	Christopher se esfora bastante, mas no tem chance de procurar mudanas. Sua dedicao ao trabalho  invejvel.
	Ah, sim, eu no estava falando do profissionalismo dele. Meu irmo sempre foi um perfeccionista obsessivo.
 Um empreendedor nato.  A ironia de Ruth voltou.  Mas algumas coisas costumam cair no colo dele sem que precise se esforar para conseguir algo.
Annebelle concordou com tudo em silncio, pois aquele no era lugar para discutirem o assunto. Em vez de fazer comentrios, sorriu.
	E, por falar nisso, Josh estava no colo dele quando os vi pela ltima vez.
	Certo! Vou at l. Foi muito bom e divertido conversar com voc, Annebelle. Espero v-la de novo qualquer dia.  E Ruth dirigiu-se para ao escritrio do irmo.
Divertido... A famlia de Christopher parecia ser viciada em divertimento.
Annebelle imaginou como seria crescer em uma atmosfera alegre e feliz. Lembrou-se da prpria infncia dominada pelo medo que sentia do pai. Ele nunca cometera nenhum abuso fsico, mas tambm no precisava. Conseguia manipular a todos com um simples olhar ou com uma s palavra. Era autoritrio e, sempre que Annebelle podia, tentava fugir do clima domstico castrador.
A me era submissa. S conseguira escapar da sina que levava atravs da morte, e foi a partir da que Annebelle libertou-se do pai.
Os dois irmos mais velhos j tinham sado de casa por causa da insensatez paterna. Annebelle nunca mais os vira e, desde ento, vivia sozinha, sem famlia.
Tinha um forte desejo de construir seu futuro seguindo as prprias crenas. Talvez por isso no tivesse forado um casamento com Steve. A mais remota possibilidade de ter um marido estava muito ligada  imagem do pai. No queria pertencer a ningum. Gostava da classificao de Steve de ser um esprito livre. Era muito atraente. No entanto, mais tarde, descobriu o significado disso para Steve.
Que estpida fora!
Annebelle balanou a cabea e voltou a trabalhar. No podia aprender nada se ficasse remoendo seus erros. A melhor atitude a ser tomada era olhar para a frente e continuar a viver.
Por um momento teve vontade de pegar a revista que estava na gaveta e ler o artigo sobre solues para pessoas tradas.
A imagem de Christopher consolando-a veio-lhe  memria. Afastou os pensamentos. No cometeria mais equvocos naquele dia, jurou a si mesma.
No passara dois anos desenvolvendo habilidades de se defender de Christopher  toa. O que quer que ele estivesse imaginado quando fizera insinuaes no escritrio no tinha importncia. Ela no seria mais uma conquista para sua enorme lista. Ficaria firme e distante, pronta para defender-se de qualquer problema. Estaria sempre um passo  frente.
Sim... Annebelle estava se sentindo melhor. Christopher tinha habilidade para insuflar-lhe um novo nimo. Porm, no passaria disso.

CAPTULO V


No demorou muito para Christopher ir verificar como estava Annebelle. Ruth sara do escritrio pela porta que dava para a recepo, uma vez que no havia sinal dela ou do beb.
	Tudo bem?  perguntou ele, de forma casual.
	Sem problemas.  Ela se referia ao servio de impresso que acabara de fazer.
Christopher pegou as folhas e ps-se diante da mesa de Annebelle para l-las. Como sempre, a proximidade dele a deixou com os nervos  flor da pele, o que a forou a concentrar-se na digitao.
Annebelle parecia estar mais consciente da presena de Christopher do que o normal, e no esquecia alguns dos momentos anteriores... o corpo forte, o toque delicado...
Ficou curiosa de saber se ele seria um amante sensvel. Sem que se desse conta, viu-se observando as mos msculas segurando os papis. As mesmas que haviam acariciado seus cabelos com tanta gentileza.
Lembrou-se de que Christopher era suave e demonstrava isso em tudo o que fazia. Mas ter sensibilidade sexual no queria dizer que ele se importasse mesmo com algum. Poderia estar preocupado s com o prprio prazer, embora parecesse muito solidrio naquela manh. Teria sido uma estratgia para atingir algum outro objetivo?
 Eu no poderia ter escrito nada melhor  elogiou Christopher ao terminar de ler. O sorriso demonstrava uma autenticidade que quase fez Annebelle sentir-se embaraada.  Voc tem grande habilidade para seguir minhas instrues, consegue dizer o que  necessrio, ir direto ao ponto sem pressionar ningum.
	Estive aprendendo com um exmio professor nos ltimos dois anos  declarou ela, com um olhar zombeteiro.
	Mostrou ser uma aluna aplicada. No sei o que faria, sem voc aqui.  minha mo direita.
Christopher estava exagerando, e Annebelle, seguindo os instintos, recuou.
 E ento, qual  o passo seguinte na agenda de hoje?
O chefe deveria estar querendo delegar para ela alguma tarefa que no quisesse fazer.
	Dois anos, hein?  Christopher ignorou a questo.  Voc merece um aumento de salrio. Ruth est certa.
	Sobre o qu?
Aquele terreno se tornava cada vez mais perigoso.
	 maravilhosa, Annebelle. No h preo para isso. Annebelle franziu a testa.
	Tem o hbito de falar de mim com sua famlia?
	 natural.  Christopher deu de ombros.  Voc  minha assistente pessoal, aquela que est mais prxima a mim aqui no escritrio. No fala nada a meu respeito com seus familiares?
	No tenho ningum.  Annebelle deixou a frase escapar antes que pudesse perceber.
	 rf?!
O interesse demonstrado no poderia ser contornado. Annebelle suspirou. Durante todo o tempo em que trabalhava com Christopher Carter, evitara tocar em assuntos pessoais, e, naquele nico dia, tinha desfeito grande parte de tudo o que fora alcanado.
 No  bem assim  respondeu, dizendo a si mesma que a famlia estava to distante dele que no tinha importncia mencion-la.  Minha me morreu quando eu tinha dezesseis anos. Meu pai casou-se de novo, e ns no nos damos muito bem. Tenho um irmo morando na Inglaterra e outro no Alasca. Quase no mantenho contato com nenhum deles.
Aps ter comentado os fatos, Annebelle esboou um sorriso evasivo, mas foi difcil mant-lo diante da expresso de espanto no rosto de Christopher.
	Quer dizer que  sozinha? Sem algum a quem possa recorrer? No conta com ningum?
	Estou acostumada a isso. Vivo s h muito tempo.
	No est, no. Por isso estava chorando em meu ombro esta manh!
Annebelle cerrou os dentes e encarou-o.
	Precisa me lembrar disso?
	Pelo menos eu estava aqui, a seu lado. Nunca esquea, Annebelle. Quando aquele crpula de seu namorado a magoou, quem a confortou fui eu.
	Voc  meu patro! No estava junto de mim por se importar com meu bem-estar. Foi ocasional.
	Bobagem! Fiquei com voc, sim, sabia que estava certa e que no merecia ser tratada daquela forma. E conheo seu valor, ao contrrio dele.
Annebelle sabia que o passo seguinte estava para ser dado. Christopher logo tiraria vantagens de qualquer deslize que ela cometesse.
	Prefiro no discutir mais meu relacionamento com Steve.
	 claro que no. Quanto mais depressa conseguir apag-lo de sua memria, melhor ser.  uma atitude bem sensata, embora ainda haja muitas questes a serem consideradas.
	Sim. Como continuar a trabalhar.
Pode ser que tenha problemas para encontrar outro apartamento.
	Gosto do lugar onde moro, obrigada.
	No  uma boa idia ficar l, Annebelle. Lembranas podem ser deprimentes. Acho que mudar-se seria a melhor forma de comear a solucionar os problemas, embora seja difcil para voc pensar nisso agora. Mas  o melhor remdio. Fique livre de dores de cabea.
 Tenho certeza de que entende bem desses assuntos disse ela, com sarcasmo.
Porm, Christopher no se deu por vencido.
	Vou ajud-la  concluiu Christopher, como se ela tivesse concordado com a explicao, em vez de ironizar o relacionamento dele com as mulheres.
	No preciso de nada.
Christopher sorriu e, mexendo as mos, deixou os protestos de Annebelle de lado.
	Considere-me um membro de sua famlia. H momentos, como os de hoje, em que os parentes nos amparam e nos confortam. J que sou a pessoa mais prxima da voc...
	Eu nem de forma remota posso associ-lo a um familiar, Christopher.
	Bem...  Ergueu um dos ombros e a olhou, maroto.
 Isso seria de certa forma uma relao incestuosa, no seria?
	O qu?  indagou, confusa.
	No posso mentir para voc, Annebelle. O que h entre voc e mim no pode ser chamado de um relacionamento de irmos ou de pais.
Annebelle enrubesceu mais ainda e mordeu o lbio, tentando no incentivar mais nada que seguisse naquela linha de pensamento.
 Entretanto, estou preocupado com voc de verdade.
 Christopher deixara de lado o tom de provocao, passando a demonstrar uma grande sinceridade.
Annebelle procurou, desesperada, por seu costumeiro bom senso. Precisava sentir o terreno seguro entre ela e Christopher Carter. O perigo de ele infiltrar-se em sua vida particular comeou a parecer uma possibilidade muito prxima, e no era uma atitude muito sensata.
Christopher poderia falar o quanto quisesse de Steve, no entanto, no era muito melhor que o ex-namorado de Annebelle. A histria de seu patro com as mulheres no era das melhores.
	Pode deixar comigo, Annebelle. Vou encontrar um bom lugar para voc morar. De preferncia, perto daqui, para que no precise perder tempo no trnsito. Bondi Beach no  um bom bairro.
	Eu gosto de l.
Christopher ergueu as sobrancelhas.
 No  adequado para uma moa solitria. H muito movimento durante os finais de semana. No ficaria em segurana, saindo de noite sem uma companhia.
Ele tinha razo, porm, onde ela estaria segura sem algum a seu lado? Um lar sem Steve iria precisar de alguns ajustes.
 Por que no dar uma olhada por Balmoral, j que quer viver perto de uma praia?  Christopher sugeriu.  Aquela  uma rea respeitvel. Parece-me bastante tranquila.
Annebelle encarou-o, atordoada com suas boas idias.
	Mas  uma regio muito cara.
	No mais que Bondi. E, estando ao norte do cais, ser muito mais fcil chegar a Milsons Point. No precisar atravessar a ponte para vir  Wide Blue.
	No poderei pagar um aluguel em Balmoral. No tenho dinheiro nem para ficar onde estou sem um companheiro.
 Eu disse que aumentarei seu salrio. Digamos... em vinte por cento. Acho que assim poder viver com decncia.
Annebelle ficou boquiaberta. Sua mente comeou a fazer clculos.
 Um salrio desses  maior do que o de Steve!
Christopher achou graa.
 Voc vale cada centavo. Ligarei para alguns corretores que conheo. Vejamos o que eles conseguiro. Enquanto isso, envie esses papis.  Entregou a ela as respostas que Annebelle havia impresso.  Esto todas muito boas, como j disse.
Christopher passou pela mesa e saiu da sala, deixando-a sem jeito, como se estivesse descobrindo um mundo novo. Christopher Carter sempre fora um homem de palavra. Mas estaria mesmo preocupado com ela ou teria algum truque guardado na manga?
Annebelle passou os dedos pelos cabelos, tentando acalmar a confuso interior. No que poderia acreditar como um fato irrefutvel? Ambos, Christopher e a irm, estavam jogando e fazendo pontos. Nada do que eles diziam poderia ser levado a srio.
Por outro lado, Christopher sempre cumprira o que prometera. No recuaria na proposta de salrio. E aquela era uma quantia que Annebelle jamais sonhara ganhar, que possibilitaria uma melhora razovel em sua situao financeira. Poderia alcanar sua independncia to almejada, e isso significava que teria opes que no tivera antes.
Sorriu. Naquela manh, acordara achando que seu futuro seria negro, que j estava no fundo do poo. Mas, graas ao bom Deus, suas convices no eram verdadeiras. Havia vida depois de Steve, e faria o mximo para aproveit-la. E devia tudo a Christopher.
Mas, se o patro achava que poderia relacionar ligaes pessoais com o aumento de salrio, estava muito enganado. Teria de pensar melhor em seus atos!

CAPTULO VI
Annebelle tinha acabado de tirar cpias das cartas que enviara, quando Christopher entrou de repente em sua sala.
	Pegue sua bolsa, Annebelle. Vamos sair.
	Aonde iremos?
	Vou explicar no caminho.  Christopher olhou para o relgio ao se aproximar da porta.  Temos vinte minutos para chegar ao ponto de encontro.
Annebelle seguiu-o. Christopher girou a maaneta e esperou que ela passasse. Ambos atravessaram o corredor e pegaram o elevador. Annebelle estava satisfeita por envolver-se em uma atividade externa.
Christopher ficaria ocupado com outras pessoas, e assim no prestaria ateno a ela, que poderia sentir-se relaxada de novo na companhia dele.
Annebelle sempre gostara de encontros com clientes, quando observava Christopher trabalhar e seduzi-los como que num passe de mgica.
	Quem  o alvo?  perguntou ela ao entrarem juntos no elevador.
	No  "quem", e sim, "qual"  informou, enigmtico, apertando o boto do andar trreo.
  um novo barco?
Christopher fitou-a, impaciente.
 Ns no negociamos com barcos, Annebelle. S com iates.
	Desculpe-me. Foi um lapso.
	Pois no deixe que isso acontea. Quero que minha assistente pessoal impressione o homem que vamos encontrar.
	Qual  o nome dele?
	Ted Durkin, da Durkin & Harris.  um grande empresrio.
O nome no significou nada para Annebelle, mas era bvio que eram conhecidos de Christopher.
Dirigiram-se  recepo antes que ela tivesse tempo de fazer mais perguntas. Christopher conduziu-a at a escada que levava ao estacionamento reservado para ele e os clientes.
	Kate?  Christopher chamou a recepcionista.  Vamos sair. Por favor, anote os recados.
	Quando voltaro?
	No sei. Se tiver algum assunto urgente, poderei ser encontrado atravs de meu celular.
Apressado, conduziu Annebelle para as escadas e, usando o controle automtico do chaveiro, destravou as portas da BMW. Cada um tomou o seu lugar, e Christopher entregou a ela um pedao de papel ao preparar-se para ligar a ignio.
	O que  isto?
	O endereo de aonde estamos indo.  melhor pegar o guia e ir me indicando o caminho. No temos tempo para nos perder por a. Vou pegar a Military Road, depois voc me diz que direo devo seguir.
Annebelle pegou o livro do porta-luvas e procurou pelo mapa da regio. As informaes contidas na folha no ajudavam a descobrir o destino deles. Na verdade, parecia que Christopher tinha pegado o papel errado. O que estava escrito mais parecia um conjunto de informaes sobre uma mulher.
Leu mais uma vez, em voz alta, com as sobrancelhas franzidas:
	"Estelle, 26, 8. No fumante. Sem animais..."
	O endereo  rua Estelle, em Balmoral, nmero 26, apartamento 8. As outras informaes so as condies para o aluguel.
O bom humor de Annebelle desapareceu. O corao comeou a bater acelerado. Esperou at que ele voltasse a um ritmo mais normal antes de falar qualquer coisa.
	Presumo que isso seja para mim.
	Se voc gostar e pudermos acertar um aluguel razovel...
	Christopher, esse assunto no lhe diz respeito.
O chefe estivera invadindo sua privacidade durante toda a manh. Precisava colocar um ponto final antes que tudo lhe fugisse do controle.
	Eu disse que. ajudaria a procurar um bom lugar para voc morar  respondeu, determinado a seguir seus objetivos.
	Disse que faria alguns telefonemas, e no que me levaria para visitar alguns imveis durante o expediente. No posso aceitar que...
	Est quase na hora do almoo, Annebelle. Voc sempre trabalha alm do expediente quando temos alguma emergncia.  o mnimo que posso fazer para retribuir sua dedicao.
	Mas isso no  uma emergncia, Christopher. Poderei procurar uma nova casa durante meu tempo livre. Isso se eu decidir mudar-me de Bondi.
Christopher ergueu as sobrancelhas.
 Por que est ficando brava? No h mal algum em olhar um imvel. Pode ser que goste, pode ser que no, mas talvez seja a mudana ideal.
Teimosa, Annebelle no recuou.
	Voc poderia me dar o endereo, e eu...
	Imagine! Voc precisa de mim para esse negcio. Sou eu o responsvel, e posso ajud-la. Pressionei Ted para que nos mostrasse o apartamento antes de anunci-lo. Ele vai nos encontrar l, e j deve estar a caminho.  um homem muito ocupado, Annebelle, e no gostaria de faz-lo perder a viagem.
Annebelle suspirou, exasperada, aceitando a derrota. Christopher era o patro, afinal. No seria pertinente criar problemas com um dos amigos dele. Porm, precisava colocar limites nas intromisses de Carter, que estava tomando as rdeas da situao sem o conhecimento ou permisso dela.
	No acha que deveria ter discutido o assunto comigo em primeiro lugar? Ainda no tomei nenhuma deciso a respeito de uma mudana.  Ela odiava a sensao de estar sendo manipulada.
	No tem obrigao alguma de fechar o negcio. Entretanto, achei uma tima oportunidade para voc. Vale a pena o apartamento ser visto, se for to bom quanto Ted diz. Ele foi um excelente conselheiro para mim no passado.
	O que h de excepcional no apartamento?  indagou com um toque de ironia.
	Para comear, a localizao. Ted falou que  uma verdadeira jia, e por um preo muito abaixo do merecido.
	Quanto  o aluguel?
	Meu amigo garantiu que vale muito mais do que est sendo pedido, mas o proprietrio est com tantas exigncias para o inquilino que o valor caiu bastante. Foi comprado h pouco, e acabou de ser reformado. O dono no quer que nenhum dano seja causado, ento...
	Por isso quer um no fumante, sem animais, sem festas.  Annebelle olhou para a folha mais uma vez.  O que significa M. S. R.?
 Uma mulher solteira e responsvel. Algum que respeite a propriedade e tenha uma mente limpa.  Christopher deu um sorriso provocante.  Eu disse que voc era a pessoa ideal. Nunca conheci outra garota que gostasse mais de deixar tudo no lugar certo.
"Incluindo voc", pensou ela. Christopher era um homem que podia usar o prprio charme para conseguir tudo o que queria.
"Mas no comigo", concluiu, decidida. Fora muito ruim viver dependendo de Steve e depois se desiludir. Se Christopher se aproximasse demais, seria muito perigoso.
Annebelle tinha a impresso de que o chefe tinha o poder de roubar-lhe a alma. Se isso acontecesse, o que seria dela?
O instinto de autoproteo parecia tocar um alarme mais forte a cada minuto que se passava. Magoada e vulnervel com a revelao do final de semana, admitiu estar com medo de que Christopher fosse capaz de baixar sua guarda. Temia as consequncias disso. Sabia que a antiga barreira de ser uma mulher com um compromisso no existia mais.
Annebelle abriu o guia de ruas e comeou a ditar o caminho, tentando ignorar o homem que estava a seu lado. O poder de seduo de Christopher era muito forte, contudo. Pura masculinidade em um carro potente, amigos influentes, e tudo rodeando-a ao mesmo tempo.
As palavras que o escutara dizer ao sobrinho se repetiam sem parar: "Annebelle est como queremos... Talvez no exatamente no lugar certo..."
A idia de uma nova casa em Balmoral fora de Christopher, e sugeria um novo cenrio. Ele chegara at a lhe dar um aumento de salrio, encontrara um lugar perfeito e a enganara, tirando-a do escritrio, fazendo presso ao alegar a importncia de um contato de negcios.
Ser que havia alguma relao preestabelecida entre ele e o corretor de imveis, Ted Durkin?
Mas por qu? Que importncia teria para Christopher t-la em Balmoral?
A nica forma de ter certeza de que no estava sendo manipulada era tomar as decises sozinha e a seu modo. Enquanto isso, agiria como uma boa garota. Ento, deveria continuar dando as informaes sobre a direo a ser tomada.
Annebelle nunca morara no norte de Sydney e no conhecia a regio de Midle Harbour. Sua nica referncia anterior sobre Balmoral se devia a uma entrevista que lera sobre uma celebridade da televiso que morava na regio e a elogiava muito.
E o fato significava que o bairro era considerado um lugar de classe. E muito caro. Qualquer moradia perto da praia era para pessoas de alto poder aquisitivo.
Ao encontrar a rua Estelle no mapa, Annebelle observou, incrdula, a localizao. Situava-se a apenas um quarteiro da Esplanada, que percorria toda a praia, e ficava em frente ao parque, o que dava aos moradores uma tima vista das rvores e jardins, assim como do mar. Era mesmo um lugar privilegiado.
Annebelle ficou em dvida sobre o valor do aluguel que Christopher mencionara. Era um valor alto para arcar sozinha, mas muito barato, considerando o endereo. A quantia justa deveria ser o dobro da mencionada, e Christopher ainda comentara que o apartamento fora reformado fazia pouco.
	No faz sentido...
	O que, Annebelle?
	Encontrei a rua Estelle. Fica quase na praia. A propriedade deve valer um milho de dlares. Mesmo com as restries severas, o proprietrio poderia pedir um valor bem mais alto.
Christopher deveria ter feito alguns arranjos com Ted Durkin. No dava para acreditar no que estava acontecendo. Eram muitas as coincidncias.
	Eu j disse que Ted encontrou uma verdadeira barganha para a pessoa certa, Annebelle. O contrato  de seis meses, mas, mesmo assim,  um timo negcio para voc e...
	Seis meses?
Christopher estava sendo muito persuasivo, tentando convenc-la de que era uma excelente chance que no poderia ser desperdiada.
	Parece que o senhorio planeja mudar-se para l. Est s esperando vender a casa onde mora. Ele precisa esperar o momento certo e tentar alcanar o preo desejado. No pode perder dinheiro.
	Ento s so seis meses...
	Voc ser mais uma pessoa que cuidar do imvel do que uma inquilina propriamente dita, segundo Ted. Algum que d valor ao lugar e tome conta do que tem l. No  uma boa idia deixar uma casa vazia por um longo perodo.
A histria comeava a fazer sentido.
Talvez suas suspeitas fossem infundadas. Existia a possibilidade real de que Christopher estivesse tentando mesmo ajud-la. No estaria tirando concluses precipitadas?
Qualquer que fosse a verdade, porm, o fato de alugar um novo imvel no fazia muito sentido para Annebelle. Fazer mudanas tinha um custo alto, sem mencionar o transtorno de arrumar e desarrumar malas e gavetas.
No entanto, Annebelle comeava a ficar curiosa. Por que Christopher investia tanto tempo e conversa naquilo?
Ao perceber que estavam na Military Road, ela comeou a dar instrues sobre o caminho. Em poucos minutos, entraram na rua que dava para Balmoral Beach.
Annebelle ficou encantada com a vista. A gua estava azul-turquesa. Uma frota de pequenos iates passavam pela costa, adicionando maior interesse  baa pitoresca. Beirando a praia, a areia branca e fofa parecia parte de uma pintura decorada com rvores e bonitas caladas.
Aquele lugar era sossegado, ao contrrio de Bondi, que era cenrio para o encontro de uma vasta multido.
At o lado mais populoso da Esplanada parecia limpo e respeitvel. No havia lixo nem sinal de desleixo em canto algum. Annebelle ficou muito impressionada pelo charme, desejando ter tempo para explorar tudo da forma adequada. Voltaria outro dia para ver os detalhes. Afinal, sem Steve, teria muitos dias livres para fazer o que quisesse.
Entraram na rua ao lado do parque e encontraram o endereo sem dificuldade. O prdio ficava na esquina seguinte. Tinha fachada de tijolos aparentes, quatro andares e garagem subterrnea.
Annebelle presumiu que o apartamento ficasse no ltimo andar, e viu-se desejando que fosse no canto, com varanda para os dois lados, leste e norte.
 Ted est ali, esperando por ns.  Christopher acenou para o homem em p na frente do edifcio.
Enquanto se dirigiam para o estacionamento, Annebelle deu uma olhada no corretor: Era um homem de costas largas e elegante. Vestia uma camisa social, gravata listrada e cala escura.
Christopher parou a BMW a uns vinte metros de distncia.
Annebelle checou o horrio. Era meio-dia e meia. No estavam atrasados. Fora Ted Durkin quem chegara mais cedo, mas, mesmo assim, ela e Christopher andaram apressados para alcan-lo.
Annebelle percebeu que estava sendo analisada. No tinha uma conotao sexual, era mais um exame para ver se preenchia especificaes.
O corretor devia estar na casa dos quarenta anos. Os cabelos grisalhos comeavam a ficar ralos, o que tornava visvel as entradas e o olhar srio e preocupado. Foi s quando Christopher se aproximou e estendeu a mo que a ateno em Annebelle foi desviada.
	Foi muito gentil de sua parte dar-nos essa oportunidade, Ted.
	Imagine, Christopher, no fao nada de mais. Alm disso, voc fez muito por meus negcios.
	Bem, esta  minha assistente pessoal, Annebelle Taylor.
	Prazer em conhec-lo, sr. Durkin  cumprimentou Annebelle, oferecendo a mo.
O corretor retribuiu e deu um sorriso tmido.
 Para falar a verdade, srta. Taylor, no estava esperando algum to jovem.
O corretor deveria ter imaginado uma mulher de meia-idade, que s tivesse de se preocupar com o trabalho por no ter mais nada com que se preocupar.
Um fato de repente ficou muito claro: o negcio deveria ser bom ou Ted Durkin no estaria fazendo tantas perguntas.
Sem perceber que tentava desvencilhar-se de qualquer obstculo que a impedisse de ser a inquilina, Annebelle explicou sua situao:
	Tenho vinte e oito anos, sr. Durkin, e trabalho desde os dezesseis. Isso significa que so doze anos de esforo e dedicao para ter chegado ao cargo que ocupo hoje.
	Annebelle  muito responsvel  completou Christopher, com nfase.
Ted Durkin olhou para o amigo pelo canto dos olhos.
	Voc no mencionou o quanto atraente era sua assistente pessoal, Christopher. Sem querer ofender, srta. Taylor, mas o proprietrio foi muito claro quanto a...
	...festas. Esse no  meu estilo, sr. Durkin.
	Annebelle est trabalhando comigo h dois anos, Ted. Sei do carter dela, e no tenho dvidas quanto a isso.  uma pessoa de vida limpa.
	Sei...  Durkin encarou-a.  E no tem namorado? No quero parecer intrometido, mas  uma questo de preencher as exigncias do senhorio. Christopher no explicou que...
	Sim, explicou-me tudo.
Sem se importar se iria ou no ficar com o imvel, Annebelle lutava contra uma possvel rejeio, ainda mais depois do doloroso rompimento com Steve. Viu-se dando argumentos persuasivos sem se negar a falar de suas particularidades. Afinal, Christopher j sabia de tudo e tivera vontade de convencer Ted Durkin de que ela era a inquilina certa.
	Na verdade, estou dando um tempo para mim mesma. Estive envolvida por muitos anos em um relacionamento que no existe mais  declarou, sorrindo.  E no h chance de reconciliao. Sendo assim, estou s, e no pretendo mudar a situao. Seis meses seria um tempo muito bom para eu ter um pouco de paz.
	Ah!  Pelo tom de voz, Ted parecia satisfeito.  Bem, ento, vou lev-los at l para que possam conhecer a moradia. No est pronta para ser ocupada, ainda, pois os pintores esto l no momento.
Annebelle sentiu-se um pouco ridcula diante do prazer de ter sido convincente.
Olhou para Christopher ao entrarem no prdio, desejando compartilhar a sensao de realizao, visto que fora ele quem a ajudara.
Foi ento que Annebelle percebeu um sorriso de satisfao estampado no rosto de Christopher. Sentiu raiva de si mesma. Acabou entrando no jogo dele, demonstrando entusiasmo pelo plano armado para transferi-la de Bondi para Balmoral.
Mais do que depressa, Annebelle disse a si mesma que s estava tentando proteger o patro de um possvel embarao. Afinal, ainda poderia dizer "no" ao apartamento. No havia compromisso at que assinasse o contrato de aluguel. Se decidisse mudar de residncia, seria quando ela mesma determinasse o momento. E tambm haveria de ser muito mais prtico encontrar um lugar sem limite de tempo predeterminado para ficar.
Christopher Carter ainda no tinha vencido a guerra!

CAPTULO VII


Eles subiram por um pequeno elevador at o ltimo andar. Na entrada havia um hall social, iluminado por luzes protegidas por vidros com jato de areia, tornando o pequeno ambiente sofisticado e simples ao mesmo tempo.
Ted Durkin apressou-se para abrir a porta e conduzi-los para dentro.
O corao de Annebelle disparou.
Aquele era o justo apartamento que tinha varanda para os dois lados, norte e leste. A sala era ampla, ventilada e espaosa, o que lhe agradou no mesmo instante. Morar ali, mesmo que por seis meses, parecia uma idia irresistvel, uma incrvel oportunidade.
O piso era coberto por uma cermica maravilhosa, cor prola, com desenhos delicados, que lembravam ondas do mar e sugerindo ondulao deixada na areia pela gua.
A sacada era toda de vidro temperado, o que oferecia uma vista panormica e permitia a entrada dos raios solares da manh.
As paredes estavam pintadas na cor creme-claro. A cozinha era nova. Os gabinetes, em madeira marfim e detalhes em ao escovado, que combinavam com a lava-loua e o forno de microondas, assim como o tradicional.
Na sala, dois homens com macaces sujos de tinta encontravam-se sentados em cadeiras ainda encapadas por um plstico, e almoavam. Um pano enorme fora estendido no cho, e viam-se latas agrupadas em um dos cantos.
	Como est indo a obra?  Ted quis saber.
	Mais uma mo nas molduras das portas, e a ento terminaremos o servio  respondeu o pintor mais velho.
Os batentes estavam sendo pintados de cinza-claro, combinando com os detalhes do piso e contrastando com o tom creme das paredes.
	Ainda est mida a tinta?
	J deve estar quase seca. Podem andar por a sem perigo.
	timo.  Ted virou-se para Annebelle.  O antigo carpete foi retirado dos quartos para que o marceneiro pudesse instalar os armrios. O novo ser colocado no final desta semana.
	H mais de um quarto?
	So dois.
Christopher comeou a conversar com os trabalhadores enquanto o corretor levava Annebelle para ver um detalhe da decorao da sala. Parecia que ele no queria interferir na deciso que ela pudesse vir a tomar, o que a deixou confusa, pois no seguia sua linha de raciocnio.
Com determinao, tentou deixar a preocupao de lado, concluindo que deveria ter aumentado a proporo da situao. Talvez Christopher s quisesse v-la feliz e satisfeita.
Na sala havia duas portas; uma levava ao banheiro, e a outra,  lavanderia, onde havia uma mquina de lavar e uma secadora. Tudo novo.
Annebelle ficou feliz ao ver os aparelhos, j que Steve levara os que estavam no apartamento de Bondi, deixando-a com a geladeira e a televiso. Morando ali, no precisaria mandar lavar a roupa fora.
O banheiro era muito luxuoso. Era evidente a reforma recente. O azulejo acompanhava o tom da sala, e os armrios tambm eram de madeira clara. Havia at uma banheira Jacuzzi, uma ducha e tudo o mais de que algum pudesse precisar.
 Estes apartamentos antigos so bem mais confortveis. No daria para colocar uma banheira deste tamanho em um desses mais modernos  comentou Ted, sem notar a expresso de surpresa na expresso de Annebelle.  No se costuma tambm encontrar um p-direito to alto. Todos os cmodos tm uma dimenso maior que a normal.
E muito dinheiro fora investido para que tudo ficasse ainda melhor, pensou Annebelle. No houvera economia. No era de se admirar que o proprietrio fizesse tantas exigncias para manter o lugar em ordem.
O segundo quarto era grande, e o principal, ainda maior, com portas de vidro que se abriam para a varanda que dava vista para o norte.
 De que cor ser o novo carpete?  perguntou Annebelle.
Ted ergueu os ombros.
 No sei. Foi o dono quem escolheu. Posso informar-lhe na sexta-feira.
Annebelle balanou a cabea.
 No tem importncia. Nunca vi uma casa to bonita! Acredite, sr. Durkin, seria maravilhoso se eu conseguisse fechar o negcio. Acha que o senhorio me aceitaria como inquilina?
As feies de Ted relaxaram em um sorriso indulgente. Os olhos brilharam por v-la satisfeita e interessada.
	Por que no? Posso fazer qualquer negcio se eu acreditar que dar certo, e estou muito inclinado a aceitar sua proposta, srta. Taylor.
	Prometo que no o desapontarei.
	E ainda tenho a palavra de Christopher como garantia. Assim, acho que faremos um excelente acordo.
	Muito obrigada, sr. Durkin.  Annebelle tomou a mo dele e balanou-a com um certo vigor, agindo como se tivesse ganhado na loteria.
	Acho que deveria agradecer a Christopher, srta. Taylor. Foi ele quem se encarregou de tudo.
	Ah, sim,  claro!
Annebelle no se importava mais se o patro estava ou no manipulando a situao. Afinal, Christopher lhe fizera um grande favor. "Fabuloso" era a palavra certa.
Alegre, foi at a sala. O apartamento era dela! Seriam seis meses magnficos morando naquele lugar paradisaco. Seria melhor que um perodo de frias. Novas pessoas, novos vizinhos... Enfim, tudo novo!
Christopher parou de falar com os pintores e ergueu as sobrancelhas para ela.
Annebelle no conseguiu evitar, e sorriu para ele como uma criana.
Christopher correspondeu.
Houve um minuto de compreenso mtua.
Parecia um momento mgico, como se uma fonte de estrelas casse do cu transformando tudo, fazendo-a ingressar em um mundo novo. Teve vontade de rodopiar e abraar Christopher Carter.
	Fechou o negcio, Annebelle?
	Sim!  afirmou, exultante.
	Ento, vamos almoar para celebrar.
	Est bem.
Annebelle estava feliz demais para se preocupar em tomar cuidado e manter distncia. Alm do mais, o chefe contribura para o sucesso da negociao. Sem Christopher, no teria conseguido o imvel. Seria justo dividir aquele momento com ele.

CAPTULO VIII


O restaurante para onde Christopher a levou ficava no lado da praia, perto da Esplanada, um pouco  frente do antigo Bathers Pavilion, que era um ponto histrico em Balmoral.
Annebelle achou graa em v-lo. O monumento era constitudo por homens banhistas usando shorts longos e camisetas regata, e mulheres, de mais com saias rodadas.
O passado, no entanto, foi logo varrido da mente de Annebelle quando Christopher a conduziu por uma ultra moderna sala de jantar.
Os saltos dos sapatos estalavam no assoalho de madeira muito bem polido. Clientes com trajes elegantes sentavam-se em confortveis poltronas que rodeavam as mesas, que exibiam talheres e loua reluzentes. O maitre os conduziu para uma sala cercada por vidros sobre o mar.
Tudo parecia parte de um sonho, pensou Annebelle, acomodada perto da janela, olhando a gua quase debaixo de seus ps. Do lado de fora, as ondas batiam na sustentao de madeira do cais, que os pelicanos usavam para descansar.
Dentro do estabelecimento, o garom entregou a Annebelle o cardpio e perguntou o que ela gostaria de beber.
	Duas taas de champanhe  antecipou-se Christopher, que deu um sorriso que fez Annebelle estremecer.
	E gua gelada, por favor  completou depressa, dizendo a si mesma que precisava manter a calma e a cabea fria.
Annebelle j estivera em ambientes sofisticados vrias vezes, com Christopher e com parte dos clientes, mas nunca sozinha com ele. A situao sugeria um grau de intimidade em uma ocasio especial que no era muito aconselhvel.
Uma olhada nos preos dos pratos deixou Annebelle certa de que estava tendo um tratamento de primeira classe. Ali, iria saborear uma deliciosa refeio de qualidade internacional. Ficou insegura, sem saber se tinha o direito de estar naquele lugar com o patro.
 Voc reservou a mesa antes de sairmos do escritrio, Christopher?
Ele observou o menu, demonstrando contentamento.
	Sim. Grande atitude, no acha?  disse com sublime confiana no consentimento dela.
	Mas poderia no haver nada a ser celebrado.
	Seria, ento, uma forma de consol-la pelo desapontamento. Alm do mais, estaramos em horrio de almoo, de qualquer forma. Achei que precisaramos nos alimentar, e por que no comer bem? A comida daqui  soberba. J escolheu o que vai querer?
	No. Tudo parece maravilhoso.
	timo! Achei que precisvamos mesmo provocar seu apetite.
Aliviada por no ter razes para discutir o assunto, Annebelle voltou sua ateno ao cardpio, satisfeita por ter compreendido os motivos de Christopher. O almoo era parte do programa dele para ajud-la a esquecer o sofrimento e lembr-la de que a vida ainda trazia muitos motivos que faziam com que valesse a pena ser vivida. Levando-a para um ambiente novo, fazendo-a renovar o nimo, oferecendo um almoo de alta qualidade, Christopher Carter faria com que Annebelle Taylor voltasse a ter a energia de sempre.
Contente, sorriu para si mesma enquanto fazia sua escolha. Decidiu pelo fruto do mar favorito. Diante de tudo o que estava acontecendo, lagosta seria o pedido certo do dia.
Talvez Christopher no soubesse muito a respeito de coraes  partidos. Nunca tivera um relacionamento longo o bastante para descobrir. Mesmo assim, Annebelle, tinha de admitir que o chefe a estava ajudando a superar a crise emocional.
Aps o almoo, os dois iriam ao escritrio de Ted Durkin para assinar o contrato do aluguel, e a partir da Annebelle teria muita ocupao no final da semana seguinte. Os dias que pareciam parte de um perodo triste, montono e solitrio tornar-se-iam cheios de muito trabalho para organizar a mudana e expectativa dos novos momentos que estavam por vir.
Christopher estava certo ao procurar solues prticas para os problemas. A existncia no se torna enfadonha ou melanclica quando boas coisas acontecem.
O champanhe chegou, e o garom anotou os pedidos. Christopher ergueu a taa. Suas pupilas brilhavam para Annebelle.
 Ao futuro!  brindou ele.
Annebelle, feliz, correspondeu:
	Ao futuro. E obrigada por tudo, Christopher. Agradeo muito por toda sua considerao.
	O que eu faria sem sua alegria? Seu sorriso torna meu dia sempre melhor.
Annebelle riu da brincadeira e depois encostou-se no espaldar, mais relaxada, permitindo-se desfrutar o luxo, a vista panormica que a rodeava e a companhia agradvel de Christopher.
	Gosto muito de trabalhar com voc. Nunca  cansativo.
	Annebelle, voc  a melhor assistente pessoal que j tive. Na verdade,  um complemento perfeito para mim.
Christopher estava se referindo ao trabalho, nada alm disso, insistiu para si mesma, ainda que houvesse algo na voz dele que a deixasse levantar suspeitas e fizesse com que o sangue corresse mais depressa nas veias.
 Christopher, querido!
A intromisso de uma voz feminina chamou a ateno de Annebelle para uma mulher que de repente parou ao lado dele, uma loira voluptuosa, que comeou a passar as longas unhas vermelhas pela camisa de Christopher de forma provocante e possessiva.
Annebelle s conseguia ver a garota que seduzira Steve tendo o mesmo tipo de comportamento, sem se importar se ele pertencia ou no a outra. Devia ser uma pessoa decidida e sem considerao para com os outros, importando-se apenas em satisfazer os prprios desejos.
E aquela estava se insinuando para Christopher, estragando sua celebrao, roubando a atmosfera agradvel, fazendo de tudo para ser o centro das atenes.
 Que surpresa v-lo aqui hoje!  ela exclamou, sem pedir licena para se intrometer.
Annebelle a detestou. Teve vontade de tirar aqueles dedos atrevidos do brao de Christopher e coloc-los dentro daquela boca cheia de batom.
 Que prazer inesperado, Isabella...  Christopher levantou-se e se soltou dela.
Isabella! S podia mesmo ter um nome desses, pensou Annebelle. Sexy e extico.
	No se levante. Por favor, fique sentado.  Foi mais uma desculpa para toc-lo nos ombros. Isabella sorriu, expondo os dentes perfeitos para Annebelle.  Acho que no conheo sua companhia.
	Annebelle Taylor... Isabella Maddison  apresentou-as Christopher.
	Ol.
Annebelle encarou-a e percebeu a expresso de desprezo de Isabella. No se viu disposta a fazer o papel de boa amiga. No estava disposta a conhecer aquela intrusa e no fingiria dar as boas-vindas a algum to desagradvel. Que fosse logo embora, ela e sua voz sedutora.
Era bvio que Isabella tentava menosprezar uma possvel rival e no se importava com os meios de mostrar-se superior. Que mal tinha destruir o prazer de Annebelle, atrapalhar o almoo e tir-la da competio?
	Foi tima a festa de sbado, Christopher  disse Isabella, com entusiasmo, muito sedutora.
	Sim. Foi divertido.
Divertido! Annebelle sentiu vontade de divertir-se tambm.
 Que pena que eu no estava l! Christopher e eu gostamos muito de festas, no , querido?
Christopher virou-se, surpreso, para Annebelle, porm recobrou-se depressa do susto, e os lbios se curvaram, adorando a encenao.
	 claro, meu bem.
	Christopher sempre diz que nos completamos com perfeio  continuou Annebelle, revigorada diante da aprovao dele. E, com segurana, encarou Isabella.
	Ento, voc deveria ter ido at l, no acha?  Isabella retrucou com ironia e sobrancelhas erguidas.
	No sei, no.  Annebelle apanhou a taa de champanhe e fitou Christopher de forma carinhosa.  Alguns homens gostam de um pouco de liberdade. No me importo, desde que eu o tenha de volta quando quiser.
	Annebelle  muito compreensiva.
	Bem, ento quem sabe nos encontraremos outra hora, Christopher...
	Ah, eu duvido.  Annebelle era a malcia em pessoa.  Ele nunca bebe gua do mesmo poo duas vezes. E, se quiser um conselho,  melhor procurar terrenos mais firmes. Christopher estar comprometido comigo por um bom tempo ainda.
Isabella percebeu que era hora de se retirar.
	Se vocs me do licena...
	Sinta-se  vontade  disse Annebelle, disposta a apress-la, bebendo o ltimo gole para celebrar sua sada.
O olhar de Christopher demonstrava o quanto ele se divertia com a situao.
	Minha maior fantasia tornou-se realidade: v-la brigando com outra garota por mim.
	J percebi que o dia hoje no vai ser fcil mesmo.
	Mas no acha que devo acreditar em tudo o que ouvi?
	O problema  que Isabella tinha a cor errada de cabelos.
	Ah! Lembrou-se da outra mulher...
	Desculpe-me se acabei com a chance de ter outro encontro seu com ela.
Annebelle no estava nem um pouco arrependida, mas achou apropriado desculpar-se. Afinal, Christopher ainda era o patro. Entretanto, ele poderia ter colocado um fim em toda a farsa, se Isabella fosse importante.
	No tem problema, Annebelle.
	Se estalar os dedos, garanto que ela volta correndo.
	Isabella no  nenhuma grande paixo.  Foi uma afirmao surpreendente e sria. Christopher encarava Annebelle como se quisesse assegurar que falava a verdade.
Porm, nada tinha sentido para ela. Nenhuma moa parecia fazer diferena para Christopher Carter.
	Isabella foi seu ltimo caso?  Por alguma razo, tinha vontade de saber.
	No.
 S mais uma da enorme multido que o persegue.
Christopher ergueu os ombros.   Nada disso importa se no tenho interesse real por elas. E, para ser franco, Isabella no me diz nada. Nunca me atraiu. Qualquer esperana que possa ter carece de fundamento.
"Adeus, Isabella!" Annebelle ficou satisfeita por Christopher ter mais gosto que Steve. Se os dois achassem impossvel resistir aos encantos de belas loiras seria difcil para ela suportar. No que Christopher fosse ntimo, mas estava ali, acompanhando-a.
O sorriso de Christopher voltou a aparecer.
 E uma formidvel lutadora, Annebelle.
Foi a vez de ela dar de ombros.
	Mas voc me encorajou, ficando a meu lado. Se no tivesse me apoiado...
	E perder seu desempenho?
	O fato  que foi voc quem me deixou vencer, Christopher.  Annebelle sentia-se muito bem com o apoio recebido.
	Somos um time. timo, diga-se de passagem.
	Um time  repetiu, satisfeita, e se serviu de mais champanhe para brindar  esplndida sensao de compor uma dupla com Christopher.
A entrada foi servida. Annebelle comeu com gosto. No s a comida era fantstica, mas as perspectivas de uma nova vida renovavam seu nimo. Talvez o apetite saudvel fosse at uma consequncia do sentimento de vitria.
	Mais champanhe?  perguntou Christopher, vendo-a chegar ao fim de mais uma taa.
	No, obrigada. E melhor eu comear a tomar gua gelada. Acho que j bebi demais hoje.
	Algumas vezes precisamos fazer algo diferente. Ainda mais quando queremos nos livrar das mgoas.
	J estou nova, revigorada e com o controle de volta.
	Que pena! Foi muito excitante v-la em ao. Intrigante tambm. Mostrou-me um lado de sua personalidade que fazia questo de esconder. No que eu no suspeitasse que existisse, mas...
Annebelle endireitou a postura. O corao batia acelerado. Se no tomasse cuidado, poderia cair em alguma armadilha.
Por duas vezes, chegara a se descontrolar na frente de Christopher. Poderia encontrar desculpas para si mesma, e ele talvez as aceitasse. Porm, nada voltaria a ser como era antes.
 Tem mais alguma coisa para desabafar? Algo que ainda a sufoque ou a intrigue?  Christopher tentava explorar o lado de Annebelle que acabara de conhecer.
Ela precisava arrumar uma sada, e depressa. Falar sobre algum assunto que desviasse a ateno dele talvez funcionasse.
 Sim, Christopher. Tenho uma curiosidade que no me deixa em paz desde que conheci sua irm esta manh. Importa-se de falar sobre sua famlia?
	De forma alguma. O que quer saber?
	S so voc e Ruth?
	Ruth  a mais nova. Eu nasci antes dela. H dois irmos mais velhos que ns, ambos muito bem-sucedidos e com famlia constituda. Minha me faz de tudo para comandar-nos, e meu pai, ao contrrio.
	Todos moram em Sydney?
	Sim.
 E voc  o mais rebelde?
Christopher gargalhou.
 Eles me chamavam de aventureiro quando eu era criana.
"E ainda ."
 Conte-me por qu.
Christopher comeou a narrar histrias divertidas da infncia, e Annebelle,  vontade, as ouvia, atenta, sem atentar ao poder de seduo que ele exercia sobre ela.
Era fcil imaginar Christopher correndo, brincando e sempre explorando o que o mundo tinha a oferecer, deixando a me preocupada, testando a pacincia dos irmos mais velhos, que saam para procur-lo aps terem sido advertidos por no cuidarem dele da forma adequada. Ruth tornara-se sua parceira nas aventuras quando tinha idade para acompanh-lo e sentia orgulho de ser amiga do irmo.
Aps a entrada, o prato principal foi servido. Depois dele, ambos sucumbiram ao desejo e pediram mas em calda com sufl de brandy servidas com compota de limo e kiwi para terminar a refeio.
As histrias continuaram e, encorajado por Annebelle, Christopher no parava de falar.
Ouvir sobre uma infncia feliz e uma famlia harmoniosa era algo novo e mgico para ela. Annebelle tentava no pensar na sua, pois no havia boas recordaes. E Steve, com quem se relacionara, era filho nico de pais divorciados. Fora um menino que vivera na frente de um computador at o fim da adolescncia.
Annebelle ficou a pensar se a me do filho de Steve sabia algo interessante sobre o homem que roubara. Steve era uma pessoa calma, fazia tudo para continuar a ter um cotidiano pacato. Sua filosofia consistia em evitar confrontos, e, assim, muitos problemas no eram resolvidos.
 Eu a perdi. No est prestando ateno ao que digo.
O comentrio de Christopher fez com que Annebelle voltasse  realidade. Sem jeito, sorriu.
 No  isso, Christopher. Estava pensando no que voc me dizia. Tem muita sorte por no ter medos, traumas ou inibies.  abenoado por ter nascido entre os seus.
Christopher ergueu um pouco a cabea, e a curiosidade do olhar penetrante comeou a deix-la com a sensibilidade  flor da pele. Talvez a sensao fosse efeito dos ltimos acontecimentos, do champanhe e da boa comida. Em vez do antigo charme que a fazia precaver-se, Annebelle sentiu vontade de experimentar um novo desafio.
	Todos ns temos medos, Annebelle. E inibies so consequncias deles, independente de nossa vontade.
	Como assim?
	Bem, vejamos ns dois. Eu gostaria muito de lev-la correndo para a cama e fazer amor de todas as formas com voc, durante o resto da tarde.
Por algum momento, Annebelle ficou parada, seduzida pela idia.
Ento, Christopher sorriu e continuou:
 Mas tenho meus receios. Temo que se afaste, que desaparea de vista, e no quero perd-la. Ento... estou aqui... inibido e sem esperanas.
As sobremesas chegaram.
 A consolao!  exclamou Annebelle, fazendo o possvel para deixar a ambos fora do estado de choque e tentar relaxar.
O desejo viera to depressa e forte que ela estremecera. Precisava voltar a usar a razo.
Tudo acontecera porque sempre houvera muita atrao fsica, apesar do relacionamento com Steve. Porm, naquele instante, no havia mais motivos para que algo fosse proibido.
Annebelle gostou de estar ao lado de Christopher, sendo bem tratada. Precisava sentir-se valorizada, aps o que houvera. No queria mais pensar na traio de Steve.
Porm, envolver-se com Christopher seria pura loucura. Como poderia trabalhar com ele depois de uma aventura? Odi-lo-ia cada vez que sasse com outra mulher. E era bvio que nada mudaria na vida dele.
Alm do mais, Annebelle no queria fazer amor com Christopher. Gostava da sensao de ser desejada, tratada como uma vencedora, e no como perdedora e rejeitada. Aquela era s uma situao interessante, no entanto. Christopher tambm chegaria a essa concluso se usasse o bom senso.
A vida dela estava tomando novos rumos, e seria burrice desperdiar todas as oportunidades conquistadas. Naquele mesmo dia, conseguira um timo aumento de salrio e um apartamento paradisaco. Por mais atraente que fosse adicionar um amante  lista de aquisies, era melhor afastar a idia de ter um caso com o patro.
Annebelle colocou a colher sobre o prato e percebeu que tinha engolido o doce sem na verdade sabore-lo. Tudo perdido, pensou. Uma pena... Uma delcia fora desperdiada...
Notou que Christopher tambm terminara. No sabia quanto tempo fazia, mas, de repente, percebeu que estava sendo observada, e teve a terrvel impresso de que seus pensamentos estavam sendo lidos. Consultou o relgio, ansiosa para pr fim em qualquer constrangimento.
 Meu Deus! A tarde est quase no fim! E melhor irmos embora, Christopher.
Ele checou as horas.
 Est certa. Precisamos assinar o contrato antes de voltar para a Wide.  Acenou para o garom e sorriu para Annebelle.  Foi um timo dia de trabalho!
Annebelle riu.
 Ns ficamos conversando por vrias horas.
 H tempo e lugar para tudo  respondeu, alegre.
E aquela no era a hora, nem o local... ainda... para o que ele tinha em mente.
Annebelle procurou evitar tal ponderao.
	Vou at o toalete.  Levantou-se sem querer parecer muito afetada pelo que ouvira.
	timo. Encontrarei voc na recepo.
Christopher a esperava, parecendo satisfeito com seu mundo. No faria nada sem o consentimento dela. Ento, era seguro ficar com ele desde que conseguisse controlar-se.
	Qual  o nome deste restaurante?  Annebelle sussurrou, ao sarem.
	Mars.
	Combina mesmo com o ambiente. O almoo foi maravilhoso, Christopher. Obrigada.
	Eu tambm agradeo.
Christopher, muito bem-humorado, demonstrava que tinha mesmo gostado do dia que tivera. Era um homem sempre disposto a encarar novos desafios. Conduziu-a at o carro com ar de proprietrio, de senhor de tudo o que o rodeava, inclusive dela, Annebelle.
Porm, no era seu dono. Graas a Steve, Annebelle era um esprito livre.
O nome do restaurante veio-lhe  memria enquanto terminava o servio daquele dia. Mars... Annebelle recordou as ondas na praia, o movimento de ir e vir, de substituio, renovao, dos pontos altos e dos baixos. Imaginou como deveria ser fazer amor com Christopher Carter. Talvez fosse semelhante. Num momento, teria a sensao de infinito poder; em outro, o extremo oposto. Prazer e frustrao.
Sexo sem amor.
"Esquea, Annebelle!"
Deixar de viver essa experincia no lhe faria mal algum.

CAPTULO IX

Annebelle fez todo o possvel para manter o bom humor, naquela noite. No permitiu que o vazio do ambiente que dividira com Steve a deprimisse mais uma vez.
Logo no haveria mais ningum morando ali, disse a si mesma. A frase a deixou mais animada. Uma nova vida estava comeando, e aproveitaria ao mximo essa nova fase.
Organizou uma lista do que precisava ser feito: entrar em contato com a agncia que alugara o apartamento de Bondi e notificar a sada, pagar as contas de luz e telefone, procurar empresas de transporte para fazer o oramento da mudana e comear a providenciar caixas para colocar seus pertences. Imaginava os mveis no imvel em Balmoral quando o telefone tocou e a trouxe de volta ao presente.
Annebelle sentiu-se relutante em responder ao chamado. Poderia ser para Steve, algum que ainda no soubesse o que tinha acontecido, e ela teria que explicar. Choque e curiosidade viriam a seguir, e seria forada a reviver os momentos de sofrimento e humilhao.
Olhou mais uma vez para o aparelho, odiando o rudo insistente, desejando permanecer sozinha, em paz, para planejar suas coisas.
Enfim, o barulho cessou. Annebelle respirou aliviada. Talvez fosse covardia no encarar a realidade, mas era to penoso reviver os fatos que preferiu deix-los de lado.
Porm, o telefone voltou a chamar por uma hora seguida, o que a forou a atend-lo, pois no chegara a considerar a possibilidade de tirar o fone do gancho. Para pr fim ao tormento, teve de ceder.
	Annebelle Taylor  disse, sem muita delicadeza.
	Graas a Deus! Estava ficando preocupada com voc, Annebelle.  Brooke Mitchell.
Brooke! Annebelle sorriu sem entusiasmo no mesmo instante. Era uma amiga que se achava ntima. Na verdade, uma mulher bastante desagradvel.
	Quando Ryan chegou do trabalho contou-me o que Steve fez. No pude acreditar, Annebelle. Depois, fiquei pensando em voc e em como deveria estar se sentindo. Pobre...
	Eu estou bem  interrompeu, sem desejar aquela manifestao de solidariedade. E tambm de indiscrio.
Brooke Mitchell adorava um mexerico, e Annebelle nunca apreciara muito a companhia dela. Brooke era casada com Ryan, que trabalhava com Steve. Os dois homens gostavam muito de computadores, e s vezes se encontravam por interesses comuns.
	Tem certeza? Ao ver que no atendia ao chamado, achei que...
	Acabei de entrar em casa  mentiu.
	Ah! Achei que estivesse... Bem, Annebelle, estou aliviada por saber que voc no...
	Que no estou desesperada? Posso assegurar-lhe que no tenho a menor inclinao para cometer suicdio, Brooke. No gosto de dramas.  "Ainda mais para satisfazer os curiosos."
	No quis dizer isso, mas  que as notcias foram to devastadoras! No posso nem explicar o quanto sinto por tudo o que aconteceu. No compreendo como Steve pde fazer o que fez com voc. Infidelidade j  grave o bastante, mas engravidar outra mulher e decidir casar-se com ela ... E ainda mais depois de todos os anos que passaram juntos.
Annebelle cerrou os dentes. Brooke estava jogando sal sobre suas feridas.
 Foi terrvel, Annebelle. Apesar de nunca ter achado uma boa idia vocs morarem juntos. Deveria t-lo segurado, exigindo o casamento.  a nica forma de termos um pouco mais de controle sobre eles.
Aquela era a opinio de uma mulher casada. Annebelle conteve a vontade de comentar as estatsticas de divrcios que provavam que Brooke no estava certa, pois poderia parecer despeito. Decidiu continuar em silncio.
 Se precisar de um ombro amigo...
A lembrana de Christopher abraando-a trouxe-lhe um certo conforto, aliviando a chateao da conversa.
	Estou muito bem, Brooke. No se preocupe. Na verdade, tive um timo dia. Christopher Carter, meu patro, at levou-me para festejar minha liberdade.  O que era quase verdade.
	Falou com ele sobre Steve?  Havia um tom de surpresa verdadeira dessa vez.
Sentindo-se vitoriosa, Annebelle continuou:
	Sim, falei. E Christopher convenceu-me de que foi timo ter me livrado de um sujeito como Steve. Ento, fique tranquila, no se incomode comigo.
	Compreendo.  Dvida e falta de jeito se misturavam no ntimo de Brooke.  Voc no tinha dito que seu chefe era um sedutor?
	Sim, e estou comeando a achar que ser cortejada por ele pode ser uma experincia bem interessante.
	Annebelle! Est falando srio?!
	Claro que estou.  Determinara-se a acabar com a imagem de mulher abandonada, sem capacidade de interessar outro homem.
	Sendo assim...  Brooke no se deixava abater.  Bem, eu estava um pouco acanhada de comentar sobre a festa de sbado. Quando convidei voc e Steve, achei que viessem juntos... Agora, a situao  muito estranha, Annebelle. Ryan acha que Steve vir com...
 Eu compreendo.Annebelle sentiu o corao apertado.
A outra moa estaria ocupando um lugar que era seu, e Steve era muito mais amigo de Ryan do que Annebelle de Brooke.
	Porm, se quiser trazer Christopher Carter...  Brooke demonstrava um interesse muito suspeito.
	Obrigada. Eu ia mesmo dizer que j tenho outros planos. Foi muito gentil de sua parte se preocupar comigo, e fico feliz por ter ligado. Eu j tinha me esquecido da festa, e, por favor, aceite minhas desculpas. Espero que voc e Ryan tenham um feliz Natal.
Annebelle desligou antes que Brooke pudesse perguntar a respeito de seus planos, pois no lhe diziam respeito. De certa forma ficou satisfeita ao imaginar Brooke morrendo de curiosidade sobre Christopher Carter em vez de sentir pena.
No entanto, achou que talvez pudesse ter sido precipitada ao us-lo para salvaguardar seu orgulho. Logo a notcia seria espalhada.
"Ora, e da?" Talvez assim todos os outros conhecidos ficassem mais  vontade para deix-la de fora de futuras reunies. Brooke no seria a nica a passar a conviver com a noiva de Steve.
Quando casais se separam, as outras pessoas tm de fazer escolhas, e era muito mais fcil aceitar o novo casal que uma mulher solteira que poderia representar alguma ameaa para as mentes das esposas.
Uma forte depresso ameaou domin-la ao constatar que dali em diante seria algo como um pria da sociedade e que no tinha amigos confiveis. Os cinco anos em comum com Steve fizeram com que se afastasse dos antigos conhecidos. E o fato de trabalhar como assistente pessoal de Christopher a mantinha ocupada demais, sem tempo de procurar formar um novo crculo de amizades.
Na verdade, Annebelle sentia-se mais prxima do patro do que de qualquer outro algum, naquele momento, o que a fez ficar ainda mais triste.
Christopher preenchia o vazio no presente, mas Annebelle sabia o quanto estaria sendo tola se ficasse dependente dele. Precisava ter o controle de seu destino, encontrar novos caminhos e conhecer novas pessoas.
A lista de todas as necessidades parecia aumentar a cada minuto. Annebelle sorriu diante da concluso. Precisaria de uma semana inteira para fazer tudo. Mas, e depois?
No parecia encontrar energia para ponderar sobre o futuro. Decidiu ir para a cama e deixar de lado os problemas. Viver sem Steve estava se tornando mais fcil. Todos diziam mesmo que o tempo cicatriza as feridas. Logo conseguiria ir dormir sem pensar nele abraado  noiva. Em um ato de defesa contra o tormento emocional, comeou a imaginar como seria estar abraada a Christopher Carter entre cobertas. Era uma fantasia perigosa, mas decidiu no dar importncia. A soluo a ajudava...
No dia seguinte, Annebelle teve dificuldade para se concentrar. S conseguia se lembrar dos sonhos que tivera de noite.
A idia de ter Christopher nos braos a deixava alerta para todas as caractersticas fsicas do chefe, em especial das mos e da boca. O perfume usado por ele tinha um aroma sexy, sutil. Embora fosse o de sempre, naquele dia parecia mais provocante.
No importava o quanto se esforasse para no mais imagin-lo, as imagens com detalhes continuavam vindo-lhe sem cessar.
Era terrvel, desconcertante. Graas aos cus, Christopher no percebeu nada. Parecia estar to concentrado nos negcios que no chegou nem a fazer as brincadeiras costumeiras. No havia nem sinal de algum desejo de enla-la e fazer amor como um louco.
Annebelle desejou que o que dissera a Brooke Mitchell nunca chegasse aos ouvidos dele. No que fosse importante, mas no correspondia  realidade. Gostaria de ir para a cama com Christopher Carter, mas era apenas uma questo de atrao fsica.
Trabalharam o dia todo e s conversaram de forma pessoal no final da tarde, quando Annebelle se preparava para ir embora. Christopher ficou em p  porta que ligava os escritrios e ficou a observ-la.
	Est melhor, Annebelle?
	No sou do tipo suicida!  Ainda tinha a conversa com Brooke muito viva, alm de todos os pensamentos que vieram a seguir.
Os olhos de Christopher se arregalaram.
	Isso nunca me passou pela cabea!
	Ento por que perguntou se eu estava melhor? Consigo lidar com situaes difceis.
	Acho que j andou conversando com alguns amigos...
	Foi isso mesmo.
	E ainda pretende mudar-se no sbado?
 Sem dvida! Mal posso esperar pelo final de semana.
Christopher sorriu, orgulhoso, como se dissesse: "Essa  minha garota!" Annebelle experimentou um estranho prazer, uma sensao de que era acolhida e protegida.
	Mas no parece estar muito  vontade hoje.  Christopher ergueu os ombros.  Estive pensando e... acho que vai ficar muito sobrecarregada, sem ajuda durante a mudana.
	J estou com tudo programado.  Passara toda a hora do almoo ao telefone, organizando tudo o que fora possvel.
	timo! Se precisar sair antes ou de alguma folga,  s pedir. Se houver algo que eu possa fazer para facilitar...
	Agradeo, Christopher.  Annebelle ficou aliviada por Christopher ter achado que estava abalada por causa de Steve.  Creio que posso cuidar de tudo sozinha, mas pode deixar que aviso se precisar de algo.
Christopher assentiu, parecendo satisfeito.
	Mais uma coisa, Annebelle. Sabe que enviei os encartes e convites para o cruzeiro de ano-novo no Free Spirit.
	Sim.
Annebelle praticamente viu diante de si o magnfico iate, grande e luxuoso, flutuando sobre guas calmas. O cruzeiro, que teria incio sob uma imensa queima de fogos no cais, no ltimo dia do ano, "teria presentes clientes ricos e famosos, todos interessados em participar do evento por puro prazer ou a negcios. Como Christopher planejara, o ano-novo era uma oportunidade perfeita para a apresentao do Free Spirit.
 Se no tiver compromissos para o dia trinta e um, gostaria que me acompanhasse ao iate para ajudar-me a recepcionar os convidados. Sei que  muita coisa para uma noite em que deveria estar de folga, mas ter uma deslumbrante vista dos fogos. Acho que ser uma das melhores.
Annebelle quase no ouviu as ltimas palavras. Registrou apenas a frase "se no tiver compromissos". Steve, com certeza, no estaria livre. Seria sua noite de npcias. Ele e a noiva loira estariam...
	Ficarei muito feliz em recepcion-los  adiantou-se, evitando tais conjeturas e procurando disfarar o frio que sentia no estmago.
	Obrigado, Annebelle. Ser ma noite muito produtiva. E divertida tambm.
S se fosse para Steve. Bem que ela poderia jogar-se do convs... No! No era uma mulher com tendncias suicidas.
	Pode contar comigo, Christopher.
	Fico feliz.  Christopher inclinou a cabea.  J vou. Bom trabalho em casa!
No foi fcil empacotar tudo. Ao retirar os pertences das gavetas, Annebelle descobriu que Steve deixara para trs todas as fotografias do tempo em que eles viveram juntos: recordaes de viagens e lembranas dos locais visitados.
Sem ver motivos para guard-las, Annebelle jogou tudo fora, assim como as roupas que a faziam se recordar de ocasies especiais. Queria se ver livre de tudo aquilo.
Quando as lgrimas teimavam em escorrer-lhe pelo rosto, sentia-se uma tola sentimental, e fazia de tudo para reagir. Chegou a levantar a hiptese de que a morte era mais fcil de aceitar do que a traio. Com a morte, as pessoas se permitiam guardar boas lembranas, mas, ao serem tradas, s havia mgoa e vontade de esquecer um perodo da vida.
Nunca mais veria Steve com bons olhos. Era melhor deix-lo de lado, assim como toda a dor que sentia.
Porm, por mais que se esforasse, no conseguia livrar-se da terrvel sensao de solido. Mesmo a forte ligao que tinha com Christopher Carter no era suficiente para faz-la sentir-se melhor. No havia uma intimidade real, ento, o prazer proporcionado se misturava  frustrao, que, aliada  autodefesa, dava-lhe a idia de estar sempre ligada a homens que jamais conseguiriam faz-la feliz.
Annebelle ficou contente com a chegada do final de semana, ansiosa por mudar-se para Balmoral e comear um novo ciclo. Ningum, exceto Christopher, sabia sobre a mudana.
Assim seria mais fcil sair sem pensar nas perdas, disse a si mesma. Aqueles que poderiam tentar entrar em contato seriam gente prxima a Steve, e qualquer preocupao que houvesse com ela logo desapareceria, uma vez que estivesse fora daquele cenrio. Era mesmo melhor sair dali, recomear em outro lugar.
No se arrependia de estar saindo de Bondi pela ltima vez, naquele sbado. Estava uma gloriosa manh de vero, boa para se deixar a tristeza para trs e encher-se de esperana. Tudo prometia uma aventura diferente da monotonia do cotidiano.
Seguindo o caminho sobre a ponte do cais de Sydney, Annebelle, excitada com a perspectiva de estar indo para algum lugar novo, quase saltou de alegria quando chegou a Balmoral. O cenrio pareceu-lhe ainda mais belo que antes.
Assim como o apartamento.
Teve uma estranha sensao de dj-vu ao olhar para o quarto principal. O carpete novo era azulado, quase do mesmo tom do que era usado nos escritrios de Milson Point. Percebeu tambm que a pintura era similar.
Ficou intrigada por um momento, era como se Christopher tivesse deixado a marca de sua personalidade ali. Mas as cores eram agradveis e tinham uma combinao atraente. Qualquer pessoa poderia t-las escolhido.
J tendo planejado o lugar onde ficariam os mveis, Annebelle organizou a entrega e colocao da moblia com eficincia.
Os encarregados terminaram o servio em pouco tempo. Ela, ento, passou o resto do dia abrindo e desfazendo malas e pacotes, deliciando-se com o espao nos armrios e gavetas ao colocar tudo no devido lugar.
Quando terminou, o cansao dominou-a, no deixando trao de toda a energia de at aquele momento. Annebelle estava l, deitada no sof, do outro lado da ponte, pronta para comear a escrever uma nova pgina de sua existncia, ainda que no tivesse tudo o que planejara para ser uma pessoa feliz. Estava sozinha, no tinha ningum para compartilhar aquele momento, e a solido a abateu, mais uma vez.
Olhou ao redor, levantou-se e andou de um lado para o outro, sem conseguir relaxar. No tinha vontade de assistir  televiso.
Ajeitou as almofadas sobre a cama. A vista da janela poderia ter lhe chamado a ateno, porm Annebelle sentia-se como se estivesse em uma torre de pedras, separada de toda a humanidade.
O soar da campainha assustou-a, fazendo-a pular. Seria um vizinho? At mesmo um estranho seria bem-vindo.
Ansiosa por ver algum, esqueceu-se das precaues de segurana e abriu a porta por inteiro, com um sorriso estampado no rosto.
Christopher Carter sorriu tambm. Com sua sensualidade carismtica aparentando frescor e vitalidade, usava uma camiseta alaranjada e short branco. A pele bronzeada e o corpo musculoso pareciam oferecer masculinidade, e o olhar deixava claro que gostara do aspecto descuidado e descontrado em que ela se encontrava.
Annebelle teve vontade de abra-lo para dar boas-vindas, e de ir mais alm. Talvez um reflexo da forte atrao que sentia? De qualquer forma, seria loucura render-se aos desejos.
Sentindo-se nua em frente a Christopher, mesmo usando um short azul curto e um top de lycra que costumava vestir nas aulas de aerbica, Annebelle estremeceu, e cada poro respondeu  vontade de ter Christopher junto de si.
Tudo aquilo era muito perigoso. Ameaador... Alarmante! E o pior era que Annebelle sabia que Christopher percebia tudo o que acontecia com ela, e no estava nem um pouco surpreso com o fato.
Fora visit-la quela hora, quando Annebelle estava muitssimo vulnervel, sem defesas, fazendo-se disponvel, pronto para ajudar, desejando... Era o mesmo de sempre. Christopher, o sedutor.
No momento em que Annebelle concluiu quais eram as intenes dele, voltou a pensar de forma racional, reprimindo tudo o que parecia querer desafiar seu bom senso. Procurando defender-se, no prestou ateno ao que disse:
 No vou para a cama com voc.  Arrependida, ficou ouvindo vrias vezes a frase que acabara de pronunciar.

CAPTULO X


 Bem, na verdade eu estava pensando em satisfaz-la de outra forma  brincou Christopher, segurando uma sacola de plstico cheia de comida e uma garrafa de vinho envolta em um embrulho.
Annebelle sentiu o rosto corar. Ficou vermelha diante do constrangimento. Sabia de sua aparncia, pois sentia como se todo o corpo estivesse ardendo em chamas.
 Vamos comear do princpio, Annebelle. Fazer mudana  uma atividade cansativa, e voc deve estar exausta. Tanto que no deve ter tido tempo para pensar no jantar, mesmo se tiver algumas provises, do que duvido.
Ele estava certo. Annebelle no fizera compras ainda.
 E, j que insistiu em fazer tudo sozinha, achei que talvez gostasse de companhia, agora que terminou de arrumar quase tudo. Que tal descansar um pouco no final do dia, deixar os ps para cima, comer uma boa comida acompanhada de uma taa de vinho e...
Christopher estava fazendo tudo de novo, convencendo-a de seu ponto de vista com motivos lgicos sem deixar que Annebelle tivesse tempo para reagir. Porm, no estavam no escritrio, e sim, no apartamento dela. Nenhum dos dois vestia roupas de trabalho. Aquilo tudo era pessoal e ntimo demais.
E pessoal e ntimo com Christopher Carter significava...
Os olhos dele piscavam de forma sedutora.
	E se mudar de idia quanto a ir para a cama comigo mais tarde...
	Viu s?! Eu sabia que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde!  exclamou Annebelle, triunfante, procurando esconder seu embarao.
	O que quer que decida estar bem para mim, Annebelle. Jamais sonharia em entrar em algum lugar sem ser desejado.
	No o convidei para vir aqui, Christopher.
	Tenho o dom da telepatia. Voc esteve me influenciando sem parar, a distncia. No pude ignorar o fato.
	Imagine! No pensei em voc uma nica vez hoje!
	Foi trabalho de seu subconsciente. No h ningum aqui para dividir tudo isso. Achei que talvez pudesse ficar triste.
Annebelle olhou-o com suspeita.
	Parece-me mais um truque psicolgico. "Aproveitar da garota enquanto ela est frgil!"
	Bem, talvez esteja certa. Acho que fui influenciado por um senso de responsabilidade a seu respeito.
	Do que est falando?
	Disse para mim mesmo: "Christopher, meu caro, foi voc quem fez Annebelle mudar-se para aquele lugar. Ela est sozinha. Por isso, o mnimo que pode fazer  ir at l e certificar-se de que tudo est bem".
	Estou tima.
Christopher deu um sorriso maroto, e seu olhar esbanjava charme.
 Trouxe o jantar comigo.
Ningum entendia mais sobre a arte de seduzir que Christopher Carter. Tudo parecia a Annebelle muito tentador. Podia at sentir o aroma das misturas chinesas.
O estmago reclamava bastante para lembr-la de que estava vazio. Mais um ponto a favor de Christopher. Alm do mais, a forte e terrvel sensao de solido desapareceu. Se ela ao menos conseguisse mand-lo embora...
	O jantar parece estar bom.
	E eu odeio comer sozinho.
	No me importo em jantar com voc, Christopher.
	Maravilha! Agora posso entrar? Prometo que no vou nem pedir para que me deixe ver o quarto.
Se quisesse, ele a levaria sem esforo para l, e a idia parecia atrair Annebelle. Mas Christopher no poderia saber o que ela sentia ou pensava. Era preciso estabelecer regras.
 Fique  vontade.  Annebelle deu um passo para o lado, deixando o caminho livre.  Voc sabe onde fica a cozinha  continuou, sem querer acompanh-lo.
Christopher passou por ela sem dificuldade. Ao fechar a porta, Annebelle percebeu que no se sentia mais solitria, porm, deixara o lobo mau entrar em sua casa. Um perigo tentador, tinha de admitir.
No entanto, iria matar a fome, e no seria a sobremesa da refeio de Christopher. Precisava trocar de roupa para o jantar. A que usava era muito insinuante.
Christopher, satisfeito, tirou os pacotes da sacola e colocou-os sobre o balco. O short branco deixava clara a curva do corpo forte e bem torneado. As coxas musculosas e msculas eram perfeitas.
Annebelle precisou respirar fundo para tentar controlar as batidas aceleradas do corao. Aquele era um homem e tanto.
Porm, aparncia no era tudo.
 Frango xadrez, carne de porco desfiada com molho agridoce, arroz, rolinhos primavera e frutas carameladas  informou Christopher, sorrindo, enquanto descrevia o menu.  Tudo pronto para o banquete.
 Foi tima sua escolha.
Christopher achou graa.
 Adquiri algum conhecimento sobre suas preferncias, Annebelle.
A frase a surpreendeu.
	Voc notou que gosto de comida chinesa?
	No h muito que no tenha notado a seu respeito, tendo-a a meu lado por dois anos.  Christopher examinou-a de cima abaixo.  Embora ainda no a tivesse visto to  vontade como hoje. Bem natural.
No mesmo instante, Annebelle cruzou os braos, percebendo, no entanto, que no conseguiu esconder os mamilos rijos.
	No se preocupe. Sou um homem com forte autocontrole.  Encarou-a de forma tentadora.
	Eu estava indo tomar um banho e trocar de roupa.
	V em frente, ento. Vou preparar tudo para nosso jantar.
Se Christopher estava pensando que ela iria voltar com uma lingerie sexy e transparente, com certeza se desapontaria.
Debaixo do chuveiro, Annebelle ensaboava a esponja para lavar-se, e no pde evitar comparar-se com as mulheres com quem Christopher saa. Graas s aulas de ginstica aerbica e a uma dieta saudvel, estava em boa forma, sem excesso de gordura ou celulite em lugar algum. E os seios eram firmes, sem sinal de flacidez.
Annebelle sempre gostara de seu corpo, e em geral no se importava em mostr-lo. No que estivesse pensando em fazer um strip-tease para Christopher. E talvez ele s gostasse dela por ainda manter-se um verdadeiro desafio, sem nunca ter se deixado seduzir. Qualquer atributo fsico ou atrao era algo irrelevante.
O que a tornava interessante para Christopher era a dificuldade. Ele apreciava lutar pelo que queria. Uma vez atingido o objetivo, o interesse desapareceria. Era assim, pelo menos, que Annebelle o via.
Procurando afastar tais idias, Annebelle decidiu lavar os cabelos. No faria mal deixar Christopher esperar mais um pouco, mostrar que no estava louca para ficar ao lado dele. Alm do mais, iria se sentir mais segura se soubesse que estava com uma boa aparncia e devidamente vestida.
Quando terminou de secar os fios, jogou-os de um lado para o outro. Estavam soltos e sedosos. Deixou o rosto limpo, sem maquiagem, j que no queria impression-lo. Christopher a conheceria ao natural.
Decidiu que usaria uma cala jeans e uma camiseta larga. Amarrou o cinto do roupo de seda para sair do banheiro para o quarto. Abriu a porta e... surpreendeu-se com as palavras de Christopher:
 Ela est tomando banho para ficar mais  vontade.
Ele deveria estar conversando com algum.
	Quer tomar uma taa de champanhe?  continuou ele, pelo jeito convidando algum para entrar no apartamento dela!  Acabei de servir uma para Annebelle e outra para mim.
	O que est acontecendo aqui?
A voz tocou fundo no corao de Annebelle. Sem a menor dvida, aquele era Steve!
	O que disse?  Christopher indagou.
	Annebelle no pode pagar por um lugar como este.  Steve, sem dvida, estava irritado e intrigado.
O choque de ouvir o antigo namorado deu a Annebelle foras para reagir. Como ele ousava critic-la ou julg-la?
 Eu dei um aumento de salrio a Annebelle.  a melhor assistente pessoal do mundo. Aceita champanhe?
 No. Vim at aqui s para ver se ela estava bem.
Sentimento de culpa, pensou Annebelle, lembrando-se do quanto sofrera e se desesperara na semana anterior.
 Pelo que estou vendo, eu no precisava ter me preocupado.
O escrnio evidente de Steve incitou Annebelle a tomar uma atitude. Virou-se a apareceu de repente na sala. Ao entrar, viu Christopher ao lado da mesa arrumada para o jantar, segurando uma garrafa, e Steve, em p junto ao balco da cozinha, mantendo certa distncia, chocado pelo luxo da sala de estar e pela presena de Christopher.
A imagem de yuppie, com os cabelos arrumados para trs com gel, que deixava uma mecha quase sobre um dos olhos, a camisa branca de linho impecvel e a cala jeans preta davam-lhe um ar um pouco imaturo, comparado  fora masculina exibida por acaso por Christopher. E, pela primeira vez, Annebelle ficou satisfeita ao constatar que Steve estava em segundo lugar na comparao. Queria mesmo afetar o ego do traidor. Que ele ficasse arrasado dessa vez!
 Meu Deus! Como entrou aqui, Steve?  Annebelle se entusiasmou com a brincadeira.
Steve encarou-a, fazendo-a ter a noo exata de sua nudez embaixo do robe de seda que ele reconheceu como sendo parte do conjunto que ela comprara no aniversrio anterior, procurando dar mais tempero  vida sexual dos dois. Porm, o esforo fora em vo, visto que ele j estava dormindo com outra mulher.
	Hum...  O comentrio sexy de Christopher foi feito para provocar ainda mais Steve.  Adorei sua idia de "uma roupa mais confortvel".
	Fico feliz  continuou ela, representando a cena de namorados.
Queria provar que no estava arrasada com os fatos. Abandonou todas as precaues, balanando a cabeleira de um lado para o outro enquanto se dirigia para Christopher, sabendo que o movimento podia acentuar ainda mais suas curvas.
 O champanhe j est servido?
 Pronto para esquentar sua corrente sangunea, querida.
O olhar malicioso de Christopher parecia ainda mais forte ao entregar a taa para ela.
Com certeza, Christopher era um homem esperto e astuto, e nunca demorava para compreender uma situao. Naquele momento, a resposta dele era hilariante. Nos palcos, seria um verdadeiro astro.
 Querida?!  exclamou Steve, surpreso.
Annebelle adorou v-lo mortificado e sendo considerado o estranho entre os trs.
	Sempre quis cham-la assim. Gostaria de agradecer-lhe por ter sado do caminho, Steve. Voc deixou Annebelle livre para mim, sem nenhum compromisso, sem precisar ser leal. Serviu para que ela abrisse os olhos e...
	No fiz nada por voc!  Steve ficava cada vez mais furioso, vendo-se discutindo com o patro da ex-namorada.
	Isso faz-me lembrar... Onde est sua noiva?  indagou Annebelle, com incrvel suavidade, aps ter se fortificado com um gole da bebida gelada.  Escondida por a para ter certeza de que voc no vai ficar muito tempo aqui?
	No. Ela no est escondida!
 Bem, se eu fosse a garota, no confiaria em voc nem por um instante. No depois de tanto esforo para amarrar uma corrente em seus ps.  Annebelle queria ferir o to famoso "esprito livre" de Steve.
Tomou mais alguns goles para ajudar a diluir tanta adrenalina.
Steve ficou com o rosto roxo. Annebelle, por isso mesmo, exultou. Era muito melhor do que toda a palidez que ele deixara estampada nas faces dela na semana anterior.
	Minha noiva sabe que estou aqui. Eu lhe disse.
	E como soube onde me encontrar, Steve? No dei meu endereo a ningum.
	Exceto para mim  interrompeu Christopher, passando o brao pelo ombro dela num gesto que demonstrava certa intimidade.  Ns nos aproximamos muito nos ltimos dias...
Annebelle aconchegou-se, sentindo o contato.
Steve os encarava como se fosse explodir de tanta ira. Cerrou o maxilar e procurou se controlar.
"Isso deve ser o que se chama de o doce sabor da vingana..." Annebelle estava prestes a cair na gargalhada.
	Fui at o prdio em Bondi esta manh e vi nossos mveis sendo carregados para um caminho de mudana...
	Nossos mveis?
Annebelle no acreditava no que ouvia. Steve estava negando a diviso de bens que haviam feito. Como ele poderia chegar a um nvel to baixo?
	Ns concordamos em que eram meus, Steve.
	A maioria . Mas h pequenas coisas que deixei para trs. Naquele momento em que discutimos o assunto, no quis deixar a situao ainda pior para voc.
	Pior para quem? No quis foi demorar mais para ir embora, isso sim. Essa  que  a verdade, Steve.
	Que seja! Mesmo assim, ainda quero o que  meu de volta. E, uma vez que estavam transportando tudo, segui o caminho at aqui, dei um tempo para que arrumasse os mveis e...
	Que considerao a sua! Do que voc esqueceu?
	Algumas fotos e recordaes...
	Joguei tudo fora.
 Voc o qu?!
Annebelle deu de ombros.
	No queria nada daquilo. E o que est feito est feito.  Annebelle ergueu a taa para celebrar o fato.
	Ningum gosta de se lembrar dos erros que cometeu na vida, Steve.  Christopher o fitava, compassivo.
	Voc poderia ter me consultado antes, Annebelle.
	Desculpe-me.  E olhando para Christopher, continuou:  Andei um pouco distrada durante esta semana...
No mesmo instante, Christopher passou os lbios pelos fios sedosos de Annebelle.
 Querida, esse perfume que est usando  to estimulante!
Ela no estava usando perfume algum. A menos que Christopher estivesse se referindo ao cheiro do xampu e do condicionador... Achou que brincava com fogo, mas o calor da proximidade dos corpos foi to agradvel que decidiu no se preocupar.
	Droga! Fiz tudo para ser honesto e decente com voc, Annebelle!
	Ah... Ento, acha que engravidar outra mulher  ser decente?
	Aposto como voc j estava tendo encontros s minhas costas...
	Annebelle?  Christopher gargalhou.  Ela  a mulher mais corajosa que conheo. Sempre a admirei muito.
Steve olhou-a, furioso.
	Fui um tolo por no acreditar em Brooke quando ela afirmou que voc mal podia esperar para ficar livre de mim.
	Bem, s vezes o que Brooke diz  verdade  respondeu Annebelle, atenta ao que acontecia.
	Sinto o mesmo que voc, querida. Na verdade, mal posso esperar que v embora, Steve.
	Alm do mais, tem de ir  festa de Brooke logo mais  lembrou Annebelle.  E- tenho certeza de que seu casamento proporcionar belas fotografias e trar muitas recordaes para seu futuro.  Ergueu a taa mais uma vez.  Seja feliz!
	Querida, deixe-me pegar esse copo vazio  ofereceu-se Christopher, estendendo a mo para coloc-lo na mesa.  Que pena que no conseguiu pegar o que queria, Steve.  Abraou Annebelle.  Mas, como minha garota disse, o que est feito, est feito. No adianta chorar pelo leite derramado. E agora, importa-se de deixar-nos a ss?
 Sabe como Annebelle costumava cham-lo, Carter?
 Steve, alterando a voz, ainda procurava sair triunfante.  Christopher, o sedutor!
 Acho justo.  Christopher, sem perturbar-se, tirou a camiseta e passou a mo no peito nu.  Pode me seduzir tambm, Annebelle. Eu adoraria.
Ela poderia ter ficado amedrontada. Tudo aquilo estava fugindo de controle. A energia do olhar de Christopher era surpreendente, e a pele parecia exercer um magnetismo sem igual.
 Vai se arrepender disso!  Mas as palavras de Steve no atingiram Annebelle.
Tudo o que ele dizia era irrelevante, e a batida da porta que veio aps a afirmao no incomodou nem um pouco.
 Deixe-me seduzi-la como nunca foi seduzida antes.
 Christopher falava bem perto da orelha de Annebelle, fazendo-a estremecer.
Quando ele a acariciou, passando as mos por seus cabelos, Annebelle ergueu a cabea para trs.
Era tarde demais para recuar. Se tivesse foras para afast-lo, talvez tentasse. Porm, o beijo de Christopher possuiu-a, e foi irresistvel a vontade de entregar-se.
No havia sada. O desejo de experimentar tudo o que Christopher Carter poderia oferecer era inegvel e muito bem-vindo.

CAPTULO XI


A paixo daquele primeiro beijo apagou qualquer sombra de bom senso de Annebelle. Pensamentos coerentes e conscientes foram excludos de sua mente, e um desejo insacivel dominou-a. Precisava satisfazer suas vontades.
A lngua de Christopher fazia movimentos erticos ao brincar com a boca de Annebelle, o que aumentava a cada instante a excitao de ambos, despertava novas sensaes que provocavam respostas pelo corpo inteiro, que procurava por mais novidades.
As mos fortes acariciavam-na por toda a extenso das costas, e os seios rijos tocavam o trax msculo e forte. Estavam separados apenas pelo fino roupo de seda.
Annebelle passou os dedos pelos ombros de Christopher, e depois pelos cabelos, tentando pux-lo para ainda mais perto.
Estremeceu de prazer ao senti-lo afagando-lhe as ndegas e encostando-a a si, fazendo-a sentir a estimulante masculinidade. As roupas formavam uma separao frustrante. Por isso, logo se livraram delas.
Depois, tudo pareceu mais delicioso, com movimentos muito sensuais, as epidermes incandescentes grudadas pelo suor, os lbios se descobrindo, lambendo, sugando, mos tocando cada centmetro do outro, coraes acelerados a fim de saciar toda a volpia at ali contida.
Annebelle desejava receber Christopher por inteiro. No continha a necessidade de entregar-se por completo.
Abraando-se e acariciando-se, deitaram-se sobre o tapete da sala. Annebelle enrolou as pernas nos quadris de Christopher. No queria perd-lo, deix-lo ir embora. A sensao era de estar se derretendo diante de tantas emoes.
Christopher queria possu-la. Os gemidos o deixavam ainda mais excitado e, sem conter-se por mais tempo, sentiu o calor e a umidade de Annebelle recebendo-o com paixo.
Dali em diante, uma parte da vida dele seria para sempre parte dela, e vice-versa.
Annebelle no sabia dizer o tempo que ficou deitada em um estado eufrico. Estavam juntos lado a lado, abraados.
Devagar, o olhar dela concentrou-se na varanda, que estava a sua frente, e se deu conta da estranha realidade.
As duas poltronas estavam prximas  mesa de caf do lado de fora, a porta de vidro, aberta, e os dois deitados no cho, nus.
Annebelle ficou chocada, sem querer pensar em como ou por que foram para ali.
Uma suave brisa refrescava o ambiente. Christopher movia a perna sobre a coxa de Annebelle, passava os lbios pelos ombros e as mos pelos seios dela.
	Est com frio?
	Sim.  Foi um leve sussurro. A garganta dela estava seca, e o raciocnio, confuso. Sentia-se paralisada, incapaz de mover-se.
 Um bom banho quente de banheira lhe far bem.
Antes que Annebelle pudesse ordenar os pensamentos, viu-se sendo carregada para o boxe, segurando-se nos msculos fortes.
Olhou ao redor e viu a camiseta laranja perto da mesa de jantar. O robe de seda, entre os ps das cadeiras. O short branco, em cima da televiso. Annebelle s no conseguiu enxergar os chinelos que usava.
Entraram no banheiro, e Christopher sentou-se na beirada da Jacuzzi. Colocou Annebelle no colo para abrir as torneiras e segurou-a pela cintura.
Ela no sabia o que fazer. Por sorte, comeou a ser beijada de novo. Assim, s precisou fechar os olhos e deix-lo fazer o que quisesse.
E Christopher era muito bom naquilo.
Annebelle teria de parabeniz-lo, mais tarde.
Apesar de saber que Christopher estava tirando proveito da situao, de sua vulnerabilidade, Annebelle no conseguia recuar ou reclamar. Aconchegou-se e sentou-se de frente. A sensao ficou ainda melhor quando ele lhe beijou os seios e depois, devagar, o colo e o pescoo.
Juntos, entraram na gua. Annebelle sabia que mais cedo ou mais tarde precisaria enfrentar tudo o que estava fazendo, mas naquele momento no tinha foras para pensar. O prazer era muito mais sedutor e trazia muito mais satisfao.
	E agora? Est melhor? Menos frio?
	Hum... Christopher sorriu.
 Foi maravilhoso, querida. Agora, deixe-me ensabo-la.
Annebelle suspirou por ter de virar-se, apesar da agradvel massagem de relaxamento que os movimentos dele propiciavam. No conteve o sorriso, ergueu a cabea de plpebras baixadas. Tudo aquilo mais parecia um sonho.
Porm, Christopher continuava sendo o mesmo de sempre: um eterno sedutor.
E o patro.
Deix-lo saber que se sentia atrada daquela forma poderia piorar ainda mais a situao. Annebelle estava muito confusa. O futuro agora parecia ainda mais incerto que antes.
Encostou-se no canto da banheira oposto a Christopher, procurando colocar as idias em ordem. Talvez conseguisse encontrar uma sada.
Christopher ergueu as sobrancelhas, diante da expresso de Annebelle. Sabia que no havia como ignorar o que tinham acabado de partilhar.
Foi quando Annebelle lembrou-se das experincias de Christopher com outras mulheres.
 No me chame de "querida"!
As palavras foram pronunciadas com tanta veemncia que ambos se assustaram. Annebelle chocou-se pela forma como mudou de repente o tratamento, e o humor espontneo de Christopher desapareceu, dando lugar a um olhar intenso e srio. Parecia estar usando toda a energia que tinha para compreender o que acontecia.
	No a chamei assim s para agrad-la, Annebelle. Gosto de voc do fundo do corao, mas, se no aprecia...
	Eu tenho nome. No sou uma de suas aventuras, Christopher. Sou sua assistente pessoal. S porque acabei indo para a cama com meu patro, no me tornei uma mulher qualquer.
	Voc? Annebelle Taylor, uma mulher qualquer?!  Christopher jogou a cabea para trs e gargalhou.  Nem mesmo daqui a um milho de anos!
Os olhos dele brilhavam.
 E sabe que est equivocada. Deixou bem claro que no queria ir para a cama comigo, e eu respeitei sua deciso.
Annebelle se debatia com suas incertezas, mas, mesmo assim, no conseguia negar a forte seduo exercida por Christopher.
Ele gostaria mesmo dela? Tudo o que sabia era que tinham ficado juntos. Tinham tido uma relao sexual, e as consequncias eram desconhecidas.
Antes que Annebelle pudesse pensar em qualquer resposta, Christopher balanou a cabea e sorriu antes de fazer um comentrio pertinente.
 Nenhum de ns dois pode se culpar por esta combusto espontnea.
Ele queria dizer que no planejara nada do que acontecera. Fora um acidente ou obra do destino? Ou aquilo tudo era uma desculpa bem conveniente?
	Foi isso?
	O que, Annebelle?
	Uma combusto espontnea?
	Foi o que pareceu para mim.  Parou um instante para pensar.  Lembro-me de estar tentando ajud-la a representar aquele nmero com seu ex-namorado e... Bem,  evidente, o que aconteceu foi uma exploso de luxria. Existe uma forte qumica entre ns. No h como negar.
Annebelle precisava aceitar a inegvel verdade. Tinha brincado com fogo, provocado Christopher, e a culpa no podia ser toda colocada nele.
Suspirou, desejando dissolver toda a angstia na espuma daquele banho. Porm, no havia escapatria. Precisava encarar os fatos.
	Ento, o que vamos fazer agora?  indagou, procurando descobrir alguma soluo em Christopher.
	Sugiro que jantemos. Ns dois precisamos recarregar as energias.
Christopher era um homem pragmtico. Se tivesse uma necessidade satisfeita, precisava se voltar para a seguinte. Depois, quem sabe, voltar  primeira...
Annebelle se repreendeu. Precisava tirar da cabea fazer sexo com Christopher.
 Est bem.  Acabou concordando, pois estava mesmo com fome.  Voc se seca primeiro, eu vou depois.
Christopher encarou-a, sem compreender o que ela queria dizer.
 No est com vergonha de mim, est?
O comentrio a fez dar um riso nervoso.
 Acho um pouco tarde para isso.  que quero o banheiro s para mim enquanto me arrumo.
Na verdade, Annebelle no pretendia arriscar ficar junto de Christopher, com ou sem toalhas. Precisava de espao para recuperar o controle de si mesma.
 Acho justo.  Ele saiu da banheira, molhando os azulejos ao redor.
Christopher era um belo homem. Estando nu, Annebelle reparou mais uma vez na perfeio dos membros e msculos enquanto ele se enxugava.
Annebelle no conseguiu desviar o olhar. Christopher era todo proporcional e muito charmoso. S o fato de observ-lo deixou-a excitada e a fez lembrar-se do quanto tinha sido bom fazer amor com o patro.
Continuou deitada na gua por mais alguns instantes. Christopher era pura tentao, no precisava fazer nada para seduzi-la.
Ao virar-se para pegar a toalha, Annebelle concluiu que a lascvia no era um pecado que assolava apenas os homens. Atingia as mulheres com uma fora devastadora tambm.
Assustada, quis saber como frear seus impulsos.
Mas a pergunta era: ser que queria fazer isso?

CAPTULO XII


O jantar estava bom. Christopher no quis nada alm de alimentar Annebelle. Fez as vezes de anfitrio, pronto para servi-la de tudo o que havia preparado e comprado para satisfaz-la. Deixou claro que no foraria nada, faria o possvel para que ela conseguisse relaxar.
Annebelle ficou contente. Apreciou a comida tambm. Com o estmago cheio conseguia pensar melhor. A dvida quanto a saber se a relao sexual atrapalhara o relacionamento deles pouco a pouco deu lugar a vrias resolues possveis.
Christopher tinha se vestido, e Annebelle sentia-se mais segura e protegida usando a cala jeans e a camiseta que escolhera para pr antes da chegada desastrosa de Steve.
Talvez a escolha das peas tivesse alertado Christopher para o nervosismo e a deciso sobre no terem mais nenhum envolvimento ntimo. Ele sempre fora um bom observador, e sabia muito bem interpretar as atitudes que eram tomadas.
Precisariam discutir como ficaria a situao deles dali em diante.
Ao tirarem a loua da mesa, Annebelle decidiu que a conversa no poderia ser adiada por mais tempo.
 Quer tomar caf na varanda, Annebelle?
Na mesma hora, ela olhou para as cadeiras e para a mesinha, que Christopher deveria ter colocado l fora enquanto Annebelle tomava banho, antes da chegada do ex-namorado.
 Voc pensou em tudo isso antes?  Ela corou, em baraada, ao recordar o instante em que percebera a mudana dos mveis.
Christopher deu de ombros.
 Pareceu-me uma boa e agradvel maneira de terminar o dia de hoje.
Annebelle encarou-o com uma coragem que no tivera durante todo o jantar.
	No veio at aqui para me seduzir, no foi, Christopher?
	 claro que no  respondeu sem pestanejar. A expresso em seguida ficou mais amena, e ele deu um sorriso carinhoso.  Eu me importo com voc de verdade. No queria que se sentisse s.
O corao dela parecia querer derreter-se. Talvez o fato de Christopher se preocupar com seu bem-estar tornasse tudo diferente.
 Alm do mais, esse no  meu estilo. Gosto de relaes em que haja interesse e desejo mtuo.
Desejo... Luxria... Talvez Christopher se preocupasse com as outras mulheres tambm.
Christopher mais uma vez fitou-a como se quisesse ler seus pensamentos.
 E ns dois fizemos tudo de comum acordo, Annebelle. Havia paixo de ambas as partes. No interprete mal o que aconteceu.
Ou seja: no misture sexo com amor.
Compartilhar apenas a cama no faria bem a nenhum dos dois, e no adiantava imaginar o contrrio. Mais uma vez, Annebelle sentiu o rosto quente, enquanto tentava entender e explicar o que a fizera ter a tal combusto espontnea.
	Christopher... Foi s uma reao, um momento. Foi porque Steve...
	No. Pelo menos seja honesta, Annebelle. No somos dois estranhos. O que houve entre ns  o resultado de algo antigo, um sentimento que vem sendo construdo ao longo do tempo.
 Mas no precisvamos ter chegado a esse ponto!  gritou ela, agitada pela forma como ele valorizava o que tinha sido uma loucura.  Ns trabalhamos juntos,
Christopher. Por favor, no torne impossvel nossa convivncia em um ambiente de trabalho.
De repente, Christopher olhou-a como se ainda no tivesse considerado o fato.
 Vou preparar o caf.  Annebelle saiu para a cozinha, querendo deixar pelo menos o balco entre eles.
As roupas no estavam mais ajudando, no quando Christopher a olhava de forma to irresistvel, fazendo-a reviver momentos de pura satisfao e prazer. Se ele a tocasse, ela no resistiria. A sensao era de que havia uma forte corrente eltrica a uni-los, pronta para dar fim a qualquer linha de pensamento mais razovel.
Para alvio de Annebelle, Christopher ficou encostado no batente da varanda. Procurando ocupar-se, colocou os pratos na mquina de lavar, enquanto a cafeteira aquecia a gua.
Aquela situao no poderia continuar. A idia de Christopher sobre um sentimento que vinha de anos quase a deixou em pnico. Deitar-se com ele fora bom. Maravilhoso, para ser franca. Mas, e a? A luxria punha fim em muita emoo sublime. Os muitos relacionamentos fracassados de Christopher eram prova disto.
A manchete da revista que ainda estava na gaveta da escrivaninha do escritrio veio-lhe  memria. Se permitisse a si mesma ter mais prazeres fsicos com Christopher Carter, Annebelle estaria procurando confuses e distncia da Wide Blue a cada minuto, por no confiar na durabilidade da relao. E como seria quando o chefe comeasse a procurar por uma nova experincia?
No era justo com ela. Ficaria ainda mais confusa e angustiada do que estava. No importava o que ele dissesse ou fizesse, Annebelle no poderia deixar-se cair em tentao. Era hora de comear a construir um futuro promissor para si mesma, sem armadilhas.
A cafeteira comeou a apitar. Annebelle serviu duas xcaras, preparou-se para servi-lo e aproximou-se de Christopher. As mos tremiam tanto que chegou a derramar a bebida no pires.
Decidiu colocar a bandeja sobre o balco e fechou os dedos por um instante. Sentia o peito apertado, o corao batendo acelerado. Em seguida, tornou a caminhar at a varanda.
Christopher estava inclinado, pensativo, admirando a bela vista noturna. No chegou nem a virar-se, ao ouvi-la chegando.
Annebelle sentou-se. No se sentiu melhor. Era impossvel relaxar para fazer com que tudo parecesse mais natural.
 Diga-me o que quer, Annebelle.
As palavras suaves tocaram-lhe a sensibilidade, transformando as dvidas e medos em detalhes insignificantes. Christopher queria saber como estava encarando os fatos.
Sem nenhuma hesitao, Annebelle levantou-se e respirou fundo. As luzes ao redor da baa asseguravam que a vida continuava normal, apesar dos altos e baixos a que todos ficam submetidos de vez em quando. Tudo o que ela precisava era de normalidade.
 Quero continuar com meu emprego  afirmou com simplicidade.
Christopher no se mexeu, nem mesmo para fitar Annebelle. Ela teve a impresso de que foi para se conter. Ficou quieto por alguns segundos.
	No existe possibilidade de perd-lo.
	Quero sentir-me  vontade no escritrio, Christopher. E segura tambm.  o nico ponto de apoio que tenho agora. Se tirar isso de mim...
	Por que eu faria uma coisa dessas?
	Poderia tornar tudo mais difcil para minha permanncia.
	Acha que vou procur-la no escritrio?  Uma certa ironia na voz deixava claro o deboche diante da idia.  Julgo como uma imensa cretinice misturar negcios com prazer, Annebelle. Alguma vez achou-me to tolo a ponto de agir assim?
	No.
	Respeito muito voc para pression-la de alguma forma indesejada.
	Sinto muito. Eu... talvez tenha visto tudo de maneira equivocada. No deveria ter presumido que voc quisesse...
	Oh, sim, eu quero, Annebelle! Seria mesmo um tolo se no tivesse vontade de fazer amor com voc sempre que fosse possvel. Fora do horrio de trabalho, porm.
Christopher falava claro, e Annebelle no duvidou um s instante de nem uma palavra. E ele no se contentaria em t-la uma s vez. A idia de ficarem juntos em outras ocasies a fez estremecer.
 Mas odiaria v-la sentindo-se... sob presso.
A escolha era dela. Era isso o que Christopher estava querendo dizer. Annebelle deveria ter ficado aliviada, mas no conseguia raciocinar de forma sensata.
 Voc dever querer ficar comigo, assim como quis esta noite  continuou, olhando-a de lado, com os cantos dos lbios um pouco erguidos.  Queria ficar comigo, Annebelle, e sabe disso. No por causa de Steve, mas porque me desejava.
Annebelle estava surpresa pela paixo que era transmitida, apesar de ele estar controlado.
	Qualquer mulher o desejaria, Christopher.
	Voc no ... uma mulher qualquer.  Por fim, encarou-a.  Pelo amor de Deus, Annebelle! Acha que o que aconteceu foi como das outras vezes, quando saio por a?
	Como posso saber?  retrucou, perdendo a fleuma que tentava manter com dificuldade.  Voc sai tanto e com tantas mulheres!
	Porque, quando vejo que no vai dar certo, no fico com uma garota por mera convenincia, e no tenho casos como seu precioso Steve.
Annebelle sentiu o golpe.
 timo. S no espere repetir performances comigo at decidir que no  mais o que voc quer. Eu mesma gostaria de escolher a sada.
Christopher endireitou a postura, nervoso, dele emanando agressividade.
Annebelle suspirou. Estava decidida a no se deixar intimidar. A lembrana da me sendo submissa ao pai surgiu-lhe, muito clara. Christopher tinha aquele tipo de poder, mas ela no se renderia. Nunca! Lutaria pelo que considerava certo, quaisquer que fossem as consequncias.
Talvez tivesse percebido o desafio, pois logo Christopher mudou de expresso. A agressividade desapareceu.
 Poderia ser algo especial para ns dois, querida.
No entanto, a excitao de Annebelle dera lugar  dor.
 Eu era especial. Por favor, deixe tudo como est. No quero brigar com voc, Christopher.
Ele esboou um sorriso breve.
 Tambm no quero brigar com voc, nem arrepender-me do que aconteceu entre ns.
Annebelle lembrava-se muito bem de Steve gritando: "Voc vai se arrepender!", e fez fora para lutar contra o mau agouro. Alm do mais, nunca experimentara tanto prazer, nunca vivera uma experincia to sensual. Fora Christopher quem proporcionara momentos inesquecveis.
 Nunca me arrependerei do que partilhamos, Christopher. Foi fabuloso.
O sorriso dele ficou mais largo. Annebelle sentiu-se acariciada pelo olhar doce.
	Ento vai guard-lo como uma boa lembrana? 
		Christopher estava desistindo?!
	Sim.
 E claro que, se algum dia quiser reviver e no deixar esse momento s na memria, deve se lembrar de mim  provocou, brincando.
Annebelle achou graa, conseguindo relaxar a tenso. Era o antigo Christopher de volta, aquele com quem estava acostumada a lidar, e agradeceu por conseguir t-lo de volta.
	No poderia considerar ningum mais para isso.
	Acho que posso me contentar com isso. E no se esquea, Annebelle: voc no est sozinha. Poder sempre contar comigo.
Depois das risadas, as lgrimas encheram os olhos dela.
	Obrigada, Christopher.  Tentava no se importar com a confuso de emoes impossveis de se definir que a dominavam.
	Est tudo bem.
Ao parar prximo de Annebelle, Christopher abraou-a. Com toda a gentileza, colocou os cabelos dela para trs e beijou-a na testa.
 Boa noite, Annebelle. No se preocupe agora. Voltaremos a trabalhar na segunda-feira.
Annebelle engoliu seco. No conseguiu dizer nada.
Christopher tocou-lhe a face com carinho, como ltimo cumprimento, e virou-se na direo da sada. Annebelle teve vontade de det-lo, gritar para que voltasse e a levasse para a cama, t-lo a seu lado por todo o tempo possvel. Entretanto, ficou ali, sem ao, at ouvir a porta se fechar.
 Boa noite, Christopher...
Assim era melhor.
Tudo fora muito bom, e no deveria mudar.

CAPTULO XIII


Apesar das afirmaes de Christopher, os nervos de Annebelle permaneciam  flor da pele, ao andar pela Alfred Street, na manh de segunda-feira. Vrias resolues se repetiam em sua cabea. No veria Christopher nu toda vez que olhasse para ele. Precisava concentrar-se no servio e agir com naturalidade.
Fazer parecer que nada tinha acontecido era muito importante. No poderia demonstrar tenso, agitao ou dizer alguma bobagem. "Pense antes de falar", ordenava a si mesma. "Finja que no existiu este final de semana."
O que quer que acontecesse, iria passar. Precisava manter-se calma.
Determinada a no recuar, Annebelle abriu as portas do prdio e entrou na direo dos elevadores demonstrando nimo.
 Ol, Kate!  exclamou, cumprimentando a recepcionista com um brilhante sorriso estampado no rosto.
 Bem, o comeo da semana est melhor do que o da anterior  observou a moa, sorrindo tambm.  Sem tristezas, certo?
No parecia que s fazia sete dias que Annebelle soubera da traio de Steve. Parecia mais uma eternidade. Sentia-se agora outra mulher.
	Est melhor?
	Sinto-me tima, Kate.  Pressionou o boto do elevador.  O chefe j chegou?
	Sim, e apressado.
	Como foi seu final de semana?
	Fiz compras de Natal.
Natal! Faltavam s trs semanas para vinte e cinco de dezembro, e Annebelle no tinha com quem ficar durante as celebraes. No havia ningum a presentear.
No entanto, isso no significava que no poderia comemorar sozinha. Compraria uma rvore para enfeitar o apartamento e pensaria em algo diferente para fazer. No se entregaria  depresso. Tinha a compostura no lugar certo, e no se deixaria abalar.
A porta do elevador se abriu, e Annebelle entrou, depois de acenar para Kate.
 Vejo-a mais tarde.
O tempo que demorou para subir foi muito curto. Annebelle pensou positivo e dirigiu-se para o escritrio de Christopher.
A porta de conexo entre as salas estava aberta, mas ela bateu antes de entrar, procurando demonstrar confiana.
 Bom dia, chefe!
Christopher estava lendo uma propaganda de avies, com a cadeira inclinada e os ps sobre a mesa. Olhou sobre o papel, ergueu uma das sobrancelhas e respondeu:
	A melhor das manhs para voc tambm!
	Vamos comear com a correspondncia?
	J dei uma olhada nos e-mails. Pegue os contratos. Vamos comear com Erikson. E cheque a agenda, Annebelle. Marcaremos um encontro com ele.
	Certo!
Ela estava quase no meio do caminho quando Christopher a fez parar:
 Espere!
O corao de Annebelle disparou. Parecia no caber dentro do peito. Parou  soleira e virou a cabea.
	Algo mais?
	Est usando roupa preta. No deixei claro que minha assistente pessoal no deve usar essa cor?
Era verdade. Ele tinha avisado.
	Eu me esqueci.  O que tambm era verdade.
	Preto no combina com sua imagem, Annebelle.  uma cor neutra, que significa segurana.
Fora por isso que ela escolhera aquela, aps ter experimentado quase todo o guarda-roupa.
	No deve mais vestir-se de preto  Christopher ordenou, apontando o indicador.
	Combinado.
	Ainda bem que no temos nenhum encontro com clientes importantes hoje. No est de mau humor, est?
	No.
	timo!  A expresso de Christopher ficou mais leve. Piscou um olho, como costumava fazer, e voltou a apoiar os ps sobre a mesa.  Pode usar vermelho sempre que quiser. Fica deslumbrante.
Christopher pegou o encarte que estava lendo, e Annebelle foi para seu escritrio, onde comearia a trabalhar. Tudo estava normal e bem. A vida poderia continuar como era antes.
Ou quase.
Annebelle percebeu que havia algo diferente. Mas a culpa no era de Christopher. Ele no falara nem fizera nada que pudesse causar algum desconforto. O problema era ela.
Quando Christopher se inclinava para pegar algum papel que cara, Annebelle se lembrava de como era aquele corpo nu. Desejou no deix-lo perceber o que estava acontecendo durante alguns perodos de distrao.
Era pura luxria. O desejo e a recordao do prazer que compartilharam pareciam domin-la.
As lembranas da noite com Christopher ainda eram muito recentes, disse a si mesma. Se alguns dias se passassem, tudo ficaria mais fcil. As imagens trridas no voltariam com tanta frequncia.
No final da semana, Annebelle j se sentia melhor. O trabalho estava indo bem. Conseguia realizar seus objetivos aceitando os desafios que Christopher colocava a sua frente.
As brincadeiras normais e inteligentes continuaram, e juntos se dedicavam aos clientes. Annebelle concluiu que Christopher apreciava mesmo a contribuio dela nos negcios.
O reconhecimento vinha de vrias formas: elogios generosos, comentrios sobre as opinies e impresses das pessoas.
Ela e Christopher trabalhavam em perfeita sintonia. O que um imaginava era de imediato compreendido pelo outro, o que facilitava todo o processo. Dois anos de familiaridade ajudaram a construir a cumplicidade dos dois, concluiu Annebelle, que tinha mais sintonia com Christopher do que com Steve. Sendo assim, no era o tempo do relacionamento que contava, e sim, o entrosamento.
Ao deixar o escritrio na sexta-feira, Annebelle desejou que todos os dias fossem de expediente. Era sinal de que estava dependente demais da companhia de Christopher, e isso no era bom. Ela precisava ter vida prpria, encontrar novas atividades.
No sbado, visitou vrias academias de ginstica entre Balmoral e Milsons Point para checar os equipamentos e as aulas que eram oferecidas. Comparou os preos, conversou com os instrutores e observou a clientela. Pesquisou tambm algumas escolas de dana. Estava decidida a ocupar-se.
A noite foi bem difcil. No importava o que tentasse fazer, continuava pensando em Christopher. No conseguia imagin-lo em casa sozinho. Deveria estar envolvido em alguma atividade social, uma festa, um encontro, e uma ou mais mulheres estariam disputando seu charme e sua ateno. Garotas lindas e sensuais, que no se negariam a ter uma experincia que fosse com Christopher Carter.
Annebelle chegou a sentir um certo remorso por ter decidido no ter mais nenhum envolvimento ntimo com o patro. Porm, essa era a deciso mais acertada, insistiu consigo mesma. Pelo menos assim estaria protegida quando Christopher se cansasse. E o emprego tambm estaria protegido.
Mas as lembranas no a deixavam em paz, mesmo na cama. Annebelle no o tirava da cabea um instante sequer.
No domingo, Annebelle foi para a praia, determinada a relaxar. Desfrutou horas agradveis observando a paisagem magnfica. Esforou-se para no pensar em Christopher, e conseguiu, na maior parte do tempo.
Segunda-feira de manh, no entanto, quando foi escolher a roupa, apanhou logo o vestido vermelho. Disse a si mesma que era estupidez querer ficar "deslumbrante" para ele, mas, mesmo assim, foi o que usou.
 Ah!  exclamou Christopher, quando a viu entrando no escritrio para cumpriment-lo.
Foi s uma slaba, mas demonstrava aprovao, e a maneira como a olhou a deixou meio desconcertada.
	A imagem  explicou, sria:  Temos um encontro com Erikson hoje.
	Sim,  claro.  Christopher sorriu.
Annebelle sentiu-se feliz durante todo o dia, e o bom humor continuou por quase toda a semana.
Annebelle, por ter o ciclo sempre funcionando com regularidade, esperava, na sexta-feira, ficar menstruada. Mas por que no ficara?
Os pensamentos confusos no a deixaram dormir. Lembrava-se a todo instante da noite em que se esquecera de tomar a plula, mas como tomara dose dupla no dia seguinte, acabara por achar que no haveria problema algum. Pulara s uma dose, afinal. Isso no alteraria a funo contraceptiva. J tinha feito isso antes uma vez, e nada acontecera.
Mas agora...
Era impossvel esquecer a noite em que deixara de tomar o remdio. Foi quando ela e Christopher... tiveram aquela combusto espontnea. Ser que poderia ser...
A hiptese de uma possvel gravidez a deixou com os nervos  flor da pele. Annebelle procurou pr de lado a possibilidade. Seria a pior ironia do destino, se ficasse grvida.
Bem quando tentava colocar sua vida em ordem, aps um relacionamento de anos que terminara porque Steve engravidara outra mulher. No que o quisesse de volta. Tudo estava terminado. Mas Christopher como pai... Era impossvel imaginar tal situao.
A menstruao estava atrasada s um dia. No era caso para alarde.
Que preocupao tola! No sbado j estaria achando graa da preocupao desnecessria. Um s comprimido no era to importante, considerando todas as cartelas. Seu corpo no lhe pregaria essa pea quando j se protegia de uma possvel gravidez fazia tantos anos.
No houve alvio algum no sbado. No domingo  tarde, Annebelle estava em pnico. Comprou um teste de gravidez em uma farmcia. No poderia suportar tanta incerteza.
A dvida terminou na segunda de manh.
No importava o quanto quisesse negar o resultado. A cor rosa estava ali, diante de seus olhos, sem sinal de erro. Aquilo significava que... esperava um filho. Checou as instrues de novo. Estava tudo certo. Cor-de-rosa era positivo.
Mas talvez, pensou, desesperada, o teste no fosse confivel. Era melhor procurar um mdico e fazer um exame de sangue.
Procurou na lista telefnica e encontrou o endereo de uma clnica, onde parou antes de ir para o escritrio. No consultrio, ficou a imaginar qual a mentira que usaria para justificar o atraso. No podia dizer que precisara ir ao mdico, pois Christopher iria querer saber o motivo, e no descansaria at descobrir tudo.
Um pneu furado, decidiu ela. Isso poderia acontecer com qualquer um.
A consulta foi um pesadelo. Sim, uma s plula esquecida poderia faz-la engravidar. Testes de farmcia em geral so confiveis, mas um exame de sangue daria a confirmao definitiva.
Annebelle ficou olhando a agulha entrar na veia, e quase desmaiou quando a seringa comeou a se encher do lquido rubro, que revelaria a indesejada verdade.
Um beb! Annebelle fechou os olhos. Implorou a Deus que o resultado fosse negativo. Ter um filho de Christopher tornaria a vida muito complicada e difcil.
O resultado sairia em vinte e quatro horas, disse o mdico. Tudo o que precisaria fazer era ligar e pedir para as enfermeiras os dados.
Annebelle olhou para o relgio. Nove e meia. Teria pela frente vinte e quatro horas de um verdadeiro tormento. Um tero do perodo que ficara com o homem causador de tudo.
Christopher devia ter usado proteo ou perguntado se ela estava se protegendo. Talvez, assim Annebelle tivesse se lembrado de tomar o contraceptivo.
Combusto espontnea era uma experincia especial, mas as boas lembranas estavam prestes a se transformar em arrependimentos terrveis.
Christopher, o sedutor... Como ele reagiria, ao ser informado de que seria pai?
Annebelle balanou a cabea.
No precisaria encarar o problema naquele momento.
Ainda tinha vinte e quatro horas.
Assustada, no sabia como enfrentar o labor ao lado de Christopher.
Ele fizera perguntas a respeito do pneu furado, e Annebelle inventou fatos para justificar o tempo que passara fora do escritrio.
Estava quase na hora de sair quando Christopher quis saber:
 Est com algum problema?
E Annebelle percebeu que estava sendo observada com muita ateno.
Ser que a criana teria aquele mesmo olhar? Sentiu um n no estmago.
 No.  Esforou-se para disfarar a angstia.  Est tudo bem.
"Exceto pelo fato de estar grvida."
	No falou comigo hoje.
	Desculpe-me por estar distrada, Christopher. Acho que a chegada do Natal...
	Est planejando algo especial?
Annebelle mencionou a data por acaso, e precisou raciocinar rpido para dizer algo coerente.
 No. Estava s pensando na famlia que no tenho. Kate Bradley estava dizendo que fez compras at cansar e...  Annebelle deu de ombros, sem saber como continuar.  Pelo menos no terei esse trabalho.
Natal... Celebrao do nascimento de uma criana... "Meu Deus! Por favor, no faa isso comigo!"
	Hum...  murmurou Christopher, nada convencido.  No  bom passar esse dia sozinha. No  nada divertido. Vou conversar com minha irm a respeito.
	O qu?  Annebelle no compreendia o que Ruth tinha a ver com o assunto.
	Deixe comigo.
Annebelle olhou para Christopher, confusa. No estava em sintonia com o patro dessa vez. Mas pelo menos ele tinha parado com o interrogatrio, e ela no estava disposta a conversar, pois ficaria ainda mais atrapalhada.
Na manh seguinte estaria livre da presena de Christopher at as dez e meia. O chefe tinha uma reunio com um cliente.
Quase doente de tanta apreenso, Annebelle pegou o telefone e ligou para a clnica. Pediu o resultado enquanto olhava para a porta fechada do escritrio, desejando que ela permanecesse assim.
A notcia que recebeu, apesar de esperada, a deixou em estado de choque.
No havia dvidas. Estava grvida de Christopher Carter.
E no tinha idia do que fazer.
Um aborto?
No!
Contar a Christopher?
Tambm no estava preparada. Precisava de tempo para saber como agir.
Lembrou-se da moa loira que usara a gravidez para forar Steve a se casar. Ser que Christopher...
No, decidiu Annebelle. Ela no iria fazer o mesmo. Casamento poderia ser uma armadilha, e faz-lo casar-se por causa do beb seria um erro para todos.
Christopher no era o tipo de homem para casamentos, pois gostava de ficar livre para novas descobertas e conquistas. Ficaria assustado com a perspectiva da paternidade, de um relacionamento longo e duradouro do qual no poderia se desvencilhar. Teria coragem de sugerir que ela no levasse adiante a gestao?
Annebelle o odiaria se o fizesse.
Ento, recordou a forma carinhosa e natural como segurara o sobrinho, Joshua.
Com o prprio filho...
O telefone tocou.
Annebelle atendeu, procurando recompor-se e manter o autocontrole para responder ao chamado.
	Bom dia...
	Annebelle,  voc? Annebelle Taylor?  Era uma voz feminina que Annebelle no reconheceu.
	Sim.
	timo! Aqui  Ruth Powell, a irm de Christopher.
	Oh...  A coincidncia por ter acabado de pensar em Joshua deixou Annebelle zonza por um momento.  Em que posso ajud-la?
	Gostaria muito que viesse passar o Natal conosco, Annebelle. Ser em minha casa, este ano. O resto da famlia estar aqui, e vo adorar conhec-la. Christopher disse que no tem ningum para passar as festas. O que acha de nos fazer companhia? Ser bem divertido!
Tudo estava acontecendo rpido demais. Annebelle no conseguia acompanhar o ritmo.
	 muito gentil de sua parte, Ruth...
	Por favor, diga que sim. No ser incmodo algum, juro. Teremos comida bastante para todo um exrcito. Mame levar o peru, minha cunhada, o tender e uma sobremesa. Christopher est encarregado das bebidas,  claro. Dissemos a ele que queremos o melhor champanhe francs.
E fora o champanhe que contribura para a confuso em que Annebelle se metera.
 Teremos uma tima comemorao. J pensamos em tudo. Voc precisa ver minha rvore! Ser o primeiro Natal de Joshua, e Martin e eu compramos a mais bonita e maior que encontramos. A decorao est fabulosa. Por favor, diga que vir!
Annebelle quase podia ver diante de si a famlia de Christopher e o nen que a convidava para ficar com eles. De repente, achou importante participar, ver Christopher com os familiares, com crianas...
	Obrigada, Ruth. Est sendo muito boa comigo.
	Voc vir?
	Sim, gostaria muito.
	timo! Christopher pode peg-la em seu...
	No ser preciso. Ele estar ajudando vocs.
	Imagine! Meu irmo no se incomodar de...
	Ruth, eu me importo.  Annebelle conseguia conviver bem com ele no escritrio. Fora do ambiente de trabalho, seria impossvel manter-se distante. Sentiu um frio na espinha s de imaginar.  Prefiro ir sozinha.
Ruth achou graa.
	Ainda consegue mant-lo na linha! Bom para voc, Annebelle! As onze horas do dia vinte e cinco estar bom para voc?
	Sim. Qual  o endereo?
Ruth disse onde morava, demonstrando estar muito contente, e se despediu.
Christopher era o responsvel por tudo, concluiu Annebelle, baseada na conversa que tiveram na vspera. Ele no gostava da idia de v-la s no dia de Natal.
A ironia era que, da ltima vez que ele tentara ajud-la e fazer-lhe companhia, acabara engravidando-a, dando a certeza de que no estaria sozinha no futuro.
Porm, como reagiria diante dos acontecimentos vindouros?
Christopher se preocupava com ela.
Mas quanto ao filho...
Natal. Talvez nessa ocasio to especial ela pudesse descobrir.

CAPTULO XIV


No momento em que Annebelle chegou  casa dos Powell, Ruth a recebeu e, de braos dados, foram para a sala, que dava para um lindo jardim e para a piscina. Havia pessoas por todos os lados, e as apresentaes foram informais.
	Annebelle, este  meu pai, tentando tirar os papis de presente espalhados por a.
	Ol, Annebelle!  Ele era uma verso mais velha de Christopher. Sorriu de sobre uma pilha de folhas brilhantes que segurava com um dos braos.  Estou cansado de escorregar ou tropear no que deixam pelo cho. Posso acabar torcendo o p.
	Prazer em conhec-lo, sr. Carter.
	E aqui est nossa rvore.  Ruth indicou-a, orgulhosa, sem dar tempo a Annebelle de conversar.
O que era bem diferente do que aconteceria se fosse o pai de Annebelle, que faria questo de ser o centro das atenes.
A rvore estava mesmo deslumbrante. Tinha pelo menos trs metros de altura, e ia quase at o teto. Os enfeites e as lmpadas eram de muito bom gosto, em tons avermelhados e dourados.
Annebelle foi conduzida at a cozinha, onde encontrou duas mulheres ao redor de uma mesa cheia de comidas tpicas.
 Grace, Tess, aqui est ela. Estas duas so minhas cunhadas, Annebelle.
Annebelle tentou dizer "ol", mas logo foi interrompida:
	Finalmente!  exclamou Grace, triunfante.  J ganhamos nosso dia, Annebelle. Agora conhecemos a mulher que coloca Christopher na linha.
	O que disse?  Annebelle ficou assustada. No queria ser o alvo de brincadeiras, mesmo que bem intencionadas. A situao era sria demais para responder sem dar importncia.
Tess riu. Ela era loira e estava grvida, o que fazia com que Annebelle ficasse ainda mais consciente de seu estado.
	No se preocupe, Annebelle  assegurou Tess.  No vamos deix-la constrangida.  que nosso cunhado no se prende s mulheres que conhece.  bom que pelo menos uma consiga ter um relacionamento estvel.
	Sou s sua assistente pessoal.
	No diga "s"  corrigiu Ruth no mesmo instante.  Achamos que voc  maravilhosa. A nica companhia constante na vida de Christopher, fora a famlia.
	E ele se importa muito com voc. Prova disso foi querer sua presena aqui.  Grace piscou.
	O que prova que Christopher tem sentimentos.  Tess ps as mos na cintura.  Estvamos comeando a duvidar da capacidade dele de se envolver. Voc foi a nica que nosso cunhado trouxe para passar o Natal.
	Ficamos juntos quase todos os dias.  Annebelle tentava esconder uma ponta de esperana nascida em seu corao.  Acho que meu patro encarou este como sendo um dia qualquer.
	De forma alguma. Christopher se importa mesmo com voc.
	E tambm tem confiana.  Tess concordava com Grace.  Isso muito nos alegra. Christopher acredita que pode sobreviver a este encontro conosco. E claro que  uma mulher forte.
Annebelle sorriu diante da afirmao e do senso de humor das trs.
	Vocs so formidveis!
	Assustadores  retrucou Ruth.  Damos muita opinio, somos competitivos e contamos histrias horrorosas. Agora  melhor vir conhecer os outros para chegar a essa concluso por si.
O marido de Ruth, Martin, Christopher e os dois irmos, Adam e Nathan, estavam todos na piscina, jogando bola com as crianas.
 Hanna, a mais velha, tem dez anos. Olvia, oito. Tom, sete. Mitch est com quatro, e Ashleigh, trs  informou Ruth.  Aqui todos devem nadar antes mesmo de aprender a andar.  uma regra.
Todos gritaram:
 Feliz Natal!
Annebelle foi contagiada por tanta harmonia e felicidade. Estavam se divertindo mesmo.
Christopher segurava uma bola de plstico e estava pronto para arremess-la. Os pequenos gritaram, juntos, todos muito entusiasmados e contentes:
 Para mim, tio Christopher!
Annebelle poderia ter ficado ali, observando-o brincar com os sobrinhos, mas Ruth a levou para o jardim, onde estava sentada uma senhora sob a sombra de uma rvore, segurando Joshua no colo.
	Mame, esta  a Annebelle de Christopher.
	Ruth, tente apresentar as pessoas da forma correta  corrigiu a me, e Annebelle lembrou-se da frase de Christopher: "Mame sempre est tentando comandar tudo e nos corrigir".
	Annebelle Taylor, esta  Elisabeth Rose Carter  Ruth falou, com tom debochado.
A me suspirou. Ainda era uma mulher atraente, apesar da idade. Os cabelos brancos e bem tratados emolduravam um rosto parecido com o de Ruth, mas os olhos castanhos eram mais reservados que receptivos.
 Foi muita gentileza de sua parte incluir-me no almoo de Natal da famlia, sra. Carter.  Annebelle sabia que estava sendo analisada por Elisabeth.   um prazer conhec-la.
	Um prazer conhec-la, tambm. Christopher tem falado muito sobre voc.
	Gosto de trabalhar com ele.
Era desconcertante ser avaliada pelo que Christopher dissera e tambm ser medida da cabea aos ps. Fora bobagem vestir um conjunto branco, procurando parecer mais confiante.
Naquele momento, Annebelle chegou a desejar estar com uma camiseta larga, em vez do traje que lhe marcava as formas. Estava grvida, mas no queria usar de nenhum artifcio para conquistar o filho dela.
	Soube que no tem nenhum parente prximo.  Elisabeth Carter usava um tom questionador, o que fez com que Annebelle se sentisse uma rejeio da raa humana.
	Meus pais vieram da Inglaterra, e meus irmos esto trabalhando em outros pases. Este tipo de encontro familiar  algo diferente para mim. Tem muita sorte, sra. Carter.
	Suponho que sim. Embora ache que somos ns os responsveis por nosso destino. Criei meus filhos valorizando muito os laos familiares.
	Ento eles tm sorte de t-la como me.
	E a sua, Annebelle? Onde est?
	Morreu quando eu tinha dezesseis anos.
	Que pena... Uma menina precisa da me.  muito fcil sair do caminho correto sem um bom conselho ou sem algum para ampar-la.
	Suponho que sim.  Annebelle achou que estava sendo considerada uma pessoa perdida na vida, sem famlia, sem orientao maternal.
	Mame, voc acha que hoje  dia para falar disso tudo com ela?  interrompeu Ruth, desesperada.
	Annebelle!  O grito de Christopher aliviou a tenso do difcil encontro.
Todos olharam para ver o que ele queria.
Christopher saiu da piscina e foi na direo das trs, secando-se com uma toalha. O corao de Annebelle parecia estar batendo na garganta. Ele tinha tanta vitalidade e... masculinidade!
Annebelle procurou se concentrar s nos olhos de Christopher. O resto da anatomia podia deix-la ainda mais atordoada. J estava com as pernas trmulas, e precisava aparentar fora e autocontrole, ainda mais diante da observao crtica de Elisabeth.
	Desculpe-me por no ter sado da gua para cumpriment-la quando chegou.  Sorria com exclusividade para ela, deixando-a mais feliz e revigorada.
	No precisa se desculpar. Ruth est tomando conta de mim. Pode voltar, se quiser, no quero interromper o jogo.
Christopher negou com um gesto de cabea.
	Est tima, com essa roupa branca. Por que nunca a vi de branco antes?
	Voc teria dito que  muito neutro e no combina com o estilo e imagem da companhia.
Christopher achou graa.
	Est certa. D-me cinco minutos para eu me vestir, e ficarei a seu lado para proteg-la dessa multido.
	Ah, se vai monopoliz-la, vou lev-la de volta para a cozinha, para que ns, mulheres, possamos conversar um pouco.
Christopher sorriu para a irm.
	J posso sentir as facas em minhas costas... No ligue para elas, Annebelle. As garotas de minha famlia tm coraes cruis.
	Oh, Christopher!  Ruth bateu no ombro dele, de brincadeira, e o irmo saiu correndo, dando risada.
	Fica bem com Joshua, mame?
	Sim, querida. Deixe-o aqui comigo.  Os olhos castanhos se fixaram em Annebelle de propsito.  Talvez tenhamos tempo de conversar mais tarde.
	Tenho certeza de que sim.  Annebelle forou-se a sorrir.
A impresso de que Elisabeth Carter no a considerava a pessoa certa para passar o Natal com o filho mais novo e os familiares era muito forte. Ainda mais para ser a me do beb dele.
Annebelle ficou triste.
A aceitao natural dos outros membros da famlia durante o resto do dia, entretanto, amenizou um pouco a dor. A integrao entre eles parecia perfeita, no tinham receios de dizer o que quisessem uns aos outros.
No havia tenso, e sim, risos por todos os lados. As crianas, alegres, brincavam e pulavam pelo jardim e pelas salas. Por vezes, havia divergncia de opinies, mas nenhum sinal de discusso, apenas conversas e brincadeiras civilizadas. Todos se interessavam uns pelos outros, demonstrando felicidade.
Christopher no a deixou ser uma simples observadora. Nem os irmos ou cunhados. Cada um deles parecia estar se esforando ao mximo para torn-la parte do grupo e para que tambm se divertisse.
As vezes, o pai de Christopher fazia alguns comentrios provocantes, e depois ficava quieto, observando os outros.
Aquela gente sabia se divertir. Para Annebelle foi uma descoberta incrvel ver como se comportavam, como eram carinhosos e unidos. Lamentou no ter tido uma experincia parecida, e desejou que o filho crescesse seguro, com um lar onde pudesse apoiar-se e sentir-se amado.
Talvez Annebelle estivesse idealizando demais o futuro, mas, comparado com o que ela tivera, aquilo tudo lhe parecia perfeito.
A sintonia com Christopher parecia aumentar ainda mais, naquele ambiente. Quando os olhares se cruzavam, Annebelle sentia-se to ntima que tinha a impresso de que, se contasse que estava grvida, no haveria problema algum entre eles. Christopher desejaria a criana e a amaria. A famlia parecia algo natural em sua existncia.
Mas, quando percebeu que estava sendo observada por Elisabeth, soube que no haveria solues fceis para o problema.
Elisabeth Carter no a aprovara. Alm do mais, a sensao de intimidade era uma iluso gerada pela harmonia especial de um dia de Natal. Christopher gostava e se importava muito com ela, mas isso no queria dizer que ele quisesse ficar preso a Annebelle por uma criana. Era apenas sua assistente pessoal, no devia esquecer.
E Christopher no a amava.
Talvez no fosse o tipo de homem que se apaixonasse, uma vez que nunca trouxera uma namorada para passar o Natal com os seus. Casos rpidos eram o estilo dele.
Talvez Annebelle no estivesse ali se tivesse aceitado ter um relacionamento breve com o chefe. Christopher sentia-se seguro achando que ela no esperava nada de seu relacionamento.
Aps o almoo, todos foram para o jardim. Nathan colocou uma rede, e os dois irmos mais velhos desafiaram Christopher e Ruth para um jogo de peteca.
O resto da famlia tomou as posies de espectadores, prontos para torcerem para os respectivos times. As crianas ficaram ao redor da piscina com alguns brinquedos, e Elisabeth Carter convidou Annebelle para sentar-se com ela num banco sob uma rvore.
Estava na hora da conversa sugerida. Annebelle ficou apreensiva para saber o que ela queria. Ser que no conhecia o prprio filho?
	Espero que esteja se divertindo  disse a anfitri.
	Muito.  Annebelle sorriu.
	Esse jogo de peteca j se tornou uma tradio nos almoos de Natal. Christopher comeou com essa histria h alguns anos. Vai durar quase uma hora. Ganha o melhor de cinco tempos.
	Deve ser uma disputa acirrada.
	Nem fale! E eles usam tticas vergonhosas, por isso o pai tem de ser o juiz.
	Mas tenho certeza de que tudo  feito com o intuito de proporcionar divertimento.
	Ah, sim!  O sorriso de Elisabeth deu lugar a um olhar astuto.  Apesar de a vida no se resumir nisso. Acho que seria muito menos complicada se todas as regras fossem seguidas.
	O que quer dizer?
	Bem... pelo que soube por Christopher, voc viveu... Ou melhor, teve um relacionamento com um homem por muitos anos.
	Muitas pessoas vivem juntas  retrucou Annebelle, sria. Se no fosse por Christopher, teria sido rspida.
Elisabeth Carter continuou falando sobre o que tinha em mente:
	Devo dizer que no concordo com esse costume moderno de dividir o mesmo teto sem legitimar a unio.  Deixava claro, por sua expresso, que dava a Annebelle o privilgio de ouvi-la.  No acho que faa bem para ningum, no final das contas. No existe um compromisso real em dividir o futuro. No h segurana emocional. No  o caminho certo, Annebelle. Creio que  o que sua me teria lhe dito se tivesse tido oportunidade.
	A senhora no conheceu minha me, sra. Carter. Nem sabe do tanto que ela sofreu no casamento. Ns todos sofremos muito, alis. A senhora pode ver essa instituio como um porto seguro, onde pessoas possam crescer felizes, mas nem sempre  assim.
Silncio.
Annebelle desviou o olhar para o jogo de peteca com um n no estmago, desapontada pela forma como era julgada pela me de Christopher. No era considerada por ela como uma mulher sria. Isso no era justo, no estava certo. Todas suas defesas estavam abaladas. Annebelle no precisava passar por tudo aquilo. Necessitava de apoio, isso sim.
 Sinto muito, Annebelle. Presumo que sua me no tenha escolhido um marido apropriado.
A crtica abalou-a ainda mais. Ningum tem a viso clara para saber das escolhas alheias. s vezes, as pessoas cometem erros. Ela, Annebelle, era um exemplo claro. No tinha planejado ficar grvida. Ainda mais de um homem que no a amava.
 Talvez a senhora possa descrever-me o carter de Christopher, sra. Carter  provocou Annebelle, encarando-a.  Pelo que pude perceber nos dois anos em que trabalhamos juntos, tudo o que ele faz  seduzir mulheres.  um timo patro, um homem muito charmoso, mas no algum em quem eu confiaria para fazer-me feliz por toda a vida, ou em um casamento, como a senhora disse. O estilo dele no o tornaria, ento, uma boa escolha de uma moa, no ? Ou, nesse caso, a senhora v os fatos de forma diferente?
O choque de Elisabeth Carter estava estampado em sua fisionomia. Ser atingida por um desafio direto e pertinente foi algo inesperado.
Mas Annebelle achou que ela mereceu. Isso a faria parar de pensar que seu caula era um prmio maravilhoso para qualquer garota.
O choque foi seguido de curiosidade.
	Por que veio aqui hoje, Annebelle?
	Queria ver como era a famlia de Christopher. Ela pode dizer muito sobre uma pessoa.
	Ento deve compreender que Christopher est procurando por um complemento do que temos aqui. Ele vai continuar procurando, porque no se satisfar com menos.
Annebelle olhou para ela com ironia.
 Ele est procurando h muito tempo, sra. Carter, e sem sucesso. Posso ter morado com um homem, mas pelo menos tive um relacionamento constante por cinco anos, o que decerto Christopher tambm lhe contou. E foi a infidelidade de Steve que fez com que tudo terminasse. No tolero traio.
Elisabeth ergueu as sobrancelhas.
 No quis ofend-la, Annebelle. Conheo bem Christopher, e tenho certeza de que ele no trairia ningum. No  de sua natureza.
Para defender os filhos ela no poupava agressividade, concluiu Annebelle.
Christopher dissera o mesmo de si, encostado no balco da cozinha aps terem se amado. No entanto, isso no queria dizer que ele ficaria com uma s mulher por toda a vida.
De repente, Annebelle percebeu que era o que ela queria de Christopher. Fidelidade eterna. Mas jamais a teria. E, se decidisse revelar a gravidez, a situao ficaria intolervel para ambos. No conseguiriam ter um lar feliz. Seria um verdadeiro desgaste emocional viverem juntos sem amor.
	No se preocupe, sra. Carter. No vou levar seu filho para uma relao que a senhora no aprove.
	Annebelle...  Elisabeth Carter balanou a cabea, cansada.  Eu s queria ajudar. Sei que ficou magoada. s vezes as pessoas no conseguem ver com clareza e continuam cometendo os mesmos erros, em vez de aprender com eles. Morar junto  to... confuso...
"Assim como se divorciar." Mas Annebelle decidiu no verbalizar. Os casais daquele crculo pareciam ter relaes slidas demais para que o comentrio fizesse sentido.
 No tenho a inteno de morar com Christopher, sra. Carter. Apenas trabalho para ele. Damo-nos muito bem. Esse convite foi uma gentileza da parte de seu filho, e no  preciso dar mais importncia ao fato que o necessrio. Pode acreditar em mim.
"No vou me intrometer com sua gente", foi o que Annebelle teve vontade de dizer.
	Christopher  bom.
	Sim, ele   Annebelle concordou.
	Apesar de fazer o que faz, seu corao  de ouro. No magoaria ningum.
Annebelle suspirou.
 No precisa defend-lo para mim, sra. Carter. E no gosto de ser colocada em posio em que precise defender-me tambm. Podemos deixar o assunto de lado?
Annebelle sabia que estava sendo direta e severa, porm, a situao era delicada, e a me de Christopher estava tornando o entendimento mais difcil.
Elisabeth demonstrava que no estava satisfeita com os resultados obtidos.
	Sinto muito...  disse ela mais uma vez.
	Est tudo bem. Vamos assistir  partida, e logo depois irei embora.
	Christopher no a deixar ir.
 Sou eu quem decide o que vou fazer, sra. Carter.
Pelo menos era com o que estava acostumada havia muito tempo. Comeara quando decidira que ser independente era a nica forma de sobrevivncia. Precisara livrar-se do domnio do pai.
E, olhando para os Carter e os Powell, achou-se uma estranha diante de uma unio nunca antes conhecida.
O beb poderia ser um passaporte para a entrada naquele mundo mgico, mas de forma limitada. Annebelle nunca faria parte de um grupo de pessoas que viviam juntas por amor.
E nunca foraria Christopher a casar-se por causa da criana.
Foi difcil ficar observando o jogo. Annebelle tentou prestar ateno aos outros, mas sempre se pegava olhando para Christopher.
O pai de seu filho... Seria correto no contar nada a ele? Ou seria melhor desaparecer do caminho de todos os que a rodeavam naquele momento?
Annebelle no sabia que atitude tomar. Tudo se tornava uma imensa confuso. Sua vida estava um verdadeiro caos, cheia de dvidas e incertezas.
Enfim, o jogo terminou. Adam e Nathan concederam a vitria a Ruth e Christopher. Alegre e satisfeito, ele foi ao encontro da me e de Annebelle.

CAPTULO XV

 Agora os vencedores escolhem os novos parceiros!  gritou Christopher.  Annebelle e eu desafiamos Ruth e Martin.
	Por mim, tudo bem  disse o irmo mais velho, Nathan.  Estou precisando  de uma bebida gelada.
	Eu tambm  Adam assentiu.  E, de preferncia, dentro da piscina.
	Problemas da idade...  brincou Christopher.
	Voc vai levar o troco! Martin se encarregar de tir-lo da quadra.
	Voc no conhece minha Annebelle, Adam.
A expresso "minha Annebelle" e o sorriso glorioso dado na direo dela deixaram-na sem graa.
	Eu no, Christopher. Pegue Grace para ser sua parceira. Preciso ir embora agora.  Annebelle levantou-se, preparando-se para as despedidas.
	Como ?!
	Foi um dia maravilhoso...
	Mas ainda no acabou. Vamos acender a churrasqueira por volta das sete horas e...
	Sinto muito, Christopher. No posso ficar.
	Por que no?  Ruth entrou na conversa.
	Na verdade, estou com uma forte dor de cabea. Acho que tomei muito champanhe no almoo. Espero que compreendam.
Elisabeth Carter levantou-se.
	Voc deveria ter dito antes, Annebelle. Posso dar-lhe uns comprimidos.
	Pode deitar-se um pouco tambm  sugeriu Ruth.
	No, por favor...  Annebelle aproximou-se, procurando deter a me de Christopher.   melhor eu ir.
Elisabeth hesitou, e depois disse:
 Sinto tanto...
	Pelo que, mame?  Christopher a encarou, desconfiado.
	Por eu no estar disposta a ficar mais e jogar com vocs  adiantou-se Annebelle, forando outro sorriso.  Agora, acho melhor comear a me despedir.
Christopher fitou-a com ateno, sentindo que algo estava errado e que o problema no era s uma enxaqueca. Entretanto, para alvio de Annebelle, decidiu no pression-la.
	Voc  minha chefe hoje, Annebelle. Me, se importaria em pegar o remdio para ela tomar antes de partir?
	J estou indo, querido.
	No posso deix-la sair daqui se sentindo mal.  Em seguida, alertou os demais:  Ei, pessoal! Annebelle precisa ir embora. Ento, venham se despedir.
Todos se aproximaram, deram-lhe a mo e beijaram-na no rosto, dizendo que fora um prazer conhec-la. Confusa com o movimento, Annebelle no teve certeza se as respostas que deu foram as corretas.
Elisabeth entregou-lhe um copo de gua e uma plula. Annebelle tomou-a. A forte dor de cabea era verdadeira.
A multido a seu redor se dissipou, assim como o barulho. Por fim, ficaram s ela e Christopher, que pegou o copo, colocou-o na mesa e passou o brao dela sobre o dele.
 Tem certeza de que est bem para dirigir?  Christopher indagou, preocupado, ao lev-la para o interior da casa.
Annebelle tentou disfarar o efeito causado pelo simples toque dele. Era impressionante o quanto o desejava.
 Ficarei bem.
Christopher parou de andar na sala de estar.
	Vou sentar aqui com voc por um tempo, se quiser. Alguns minutos em silncio no lhe faro mal.
	No gostaria de ser inconveniente e atrapalhar seu divertimento.  Era difcil manter a voz calma. Decidiu afastar-se para pegar a bolsa, que deixara na cadeira ao lado da rvore de Natal.
	No  incmodo algum.
	Estou bem  repetiu com mais firmeza, j com a bolsa no ombro e dirigindo-se para o hall.
Cada passo dado para fugir do tormento parecia no ter fim.
Christopher a seguia.
	Annebelle, minha me disse algo que a aborreceu?
	Por que ela faria isso?
	Porque mame tem o hbito de achar que sabe de tudo e que seu ponto de vista  que  o correto.
	A maioria dos pais pensa assim.
"Exceto eu", pensou, em pnico. Ali estava ela, uma futura me, que no tinha idia de qual era a melhor forma de agir.
	No respondeu a minha pergunta.
	No  importante, Christopher.
	Voc  importante para mim.  Ps-se na frente de Annebelle, impedindo que ela sasse pela porta da frente.
As palavras ecoavam na cabea dela, que o fitou procurando no olhar de Christopher a extenso do que dissera. Os olhos cor de mel a observavam com intensidade. Mas o que significava aquele brilho?
Annebelle no o viu erguer a mo e estremeceu, ao ter o rosto tocado e os cabelos afagados. Com carinho, ele a puxou para mais perto. Os lbios dele procuraram os dela.
Annebelle perdeu o controle e se deixou beijar. A dor de cabea foi esquecida e deu lugar a uma agradvel sensao de satisfao. Era bom sentir a boca de Christopher e o movimento sensual da lngua.
No percebeu que os dois corpos se tocavam e que o abraava com fora, procurando sentir-se segura mais uma vez. Ali estava feliz, e ali se achava a resposta para todas as suas angstias.
 Oh!  A voz era de Ruth... interrompendo-os.  Trouxe um pedao de bolo para Annebelle. Vou deix-lo aqui sobre a mesa.
A enxaqueca de Annebelle voltou ainda mais forte. Ao ver o que estava fazendo, o que Christopher fazia, ficou desesperada. Aquela compulso fsica... atrao sexual... No era resposta para nada! Afastou os lbios depressa, mas as formas continuavam juntas. Ela o abraava, o segurava como se ele fosse a pessoa que a pudesse salvar de um desastre.
Mas sentia-se frgil. Colocou a cabea para trs, tirou as mos do cabelo de Christopher e empurrou-o, tentando impor algum espao entre eles.
	Voc no deveria ter feito isso. Tnhamos concordado em que no teramos mais este tipo de intimidade.
	No estamos no horrio de expediente, Annebelle  lembrou ele, na defensiva, esboando um sorriso sensual.  E devo confessar que no resisti  tentao de refrescar a memria.
Annebelle desvencilhou-se dos braos de Christopher e deu um passo para trs.
	Voc tirou proveito da situao.  Culp-lo no justificaria o comportamento dela, mas no fora Annebelle quem inventara a histria de passarem o Natal juntos.
	Hum...  Christopher no parecia nem um pouco abalado. Continuava sorrindo, e o olhar ainda era suave, carinhoso e cheio de desejo.  Olhe para cima.
	Por qu?  Encarou-o.
Queria tanto saber o que havia no corao daquele homem...
 Bem acima de sua cabea est um arranjo floral.
Annebelle ergueu o queixo. Ali estavam as flores, como ele dissera.
 Dizem que d sorte para o casal se eles se beijarem sob esse arranjo no dia de Natal.
"Que engraado!", pensou ela, irritada. Christopher estava tentado seduzi-la, sem dvida. Queria t-la sem importar-se com o que ela sentia ou com as consequncias futuras. Annebelle ficou furiosa, com medo e frustrada.
 Voc me fez parar aqui de propsito!
Christopher recuou, ao perceber que era srio.
 Annebelle, no h razo para ficar brava com o que aconteceu.
Christopher no alcanava a gravidade da situao. Annebelle chegou a odi-lo, naquele momento.
 No foi um beijo de Natal, Christopher.
 No. Foi muito mais do que isso.
Annebelle sentiu uma incrvel tristeza.
Christopher iria se aproximar de novo, no importava o que ela fizesse ou dissesse, e quase se desesperou ao ver que no conseguia mover-se.
 No acha esta situao curiosa, Annebelle?
Ela no tinha resposta. Estava preocupada com a atrao irresistvel que ele exercia.
 No acha curioso como nos damos bem, agora que Steve est fora do jogo? Percebe como  tudo perfeito quando estamos juntos?
Perfeito!
Annebelle ficou histrica e no conseguiu se conter:
 Claro! Tanto que acabei ficando grvida, Christopher! Ainda acha que tudo  to bom assim?!

CAPTULO XVI

Annebelle viu e sentiu no olhar de Christopher o choque da revelao. No conseguia acreditar que tinha contado, jogado a verdade sem nenhum planejamento racional e anlise das consequncias. Falara tudo, e pronto. Ali estavam eles, frente a frente.
 Grvida.  Christopher pronunciou a palavra como se fosse algo que no coubesse dentro de si.
Annebelle esfregava as mos, nervosa.
 Sinto muito. Naquela noite em que voc foi a meu apartamento e... Bem, acabei me esquecendo de tomar a plula depois que foi embora. No dia seguinte, tomei duas, em dose dupla, mas...
A voz de Annebelle desapareceu ao ver a expresso de Christopher. Estava estranho, e ela no conseguiu atinar com o que ele sentia.
 Est grvida. Esperando um filho meu.
Annebelle no compreendia. Parecia que Christopher estava gostando da idia. Talvez estivesse passando por uma crise e, por isso, seus pensamentos tivessem ficado confusos.
	Christopher?  Era importante faz-lo entender o que tinha ocorrido.  Eu no queria que isso acontecesse.
	Mas aconteceu.  O sorriso largo parecia ocupar todo o rosto dele.
Annebelle comeou a entrar em pnico. A reao dele no era normal. Christopher no deveria estar conseguindo raciocinar.
	Est me ouvindo?!  indagou, desesperada.
	Voc est esperando um filho meu... Meu!  exclamou Christopher, como se tivesse ganhado na loteria sozinho.  Por um momento cheguei a pensar que poderia ser de Steve, o que teria sido difcil de aceitar, Annebelle. Uma lembrana para sempre!
	Isso no est certo!  Annebelle precisava dar algum sentido  conversa.  Foi um acidente. No quero que se sinta na obrigao de ficar conosco.
	Obrigao?  Christopher parecia surpreso com o que ouvira.  Eu sou o pai. No deve se preocupar em poupar-me. O fato  que...
E parou de falar de repente, tomado por outra idia.
	H quanto tempo sabe?
	Do qu?
	Do beb.
	Oh! Peguei o resultado do exame de sangue h dois dias.
Christopher sorriu de novo.
	Ento no h dvidas.
	Quer parar com isso?!
	Parar com o qu?
	De parecer to satisfeito com a notcia!
	No posso evitar. No  todo dia que um homem fica sabendo que vai ser pai. Estamos falando de nosso primeiro filho... Ou filha.
	Christopher! Ns no somos casados.  Annebelle quase gritou.
	Mas poderemos dar um jeito nisso.
Annebelle encarou-o, frustrada. Christopher no estava com os ps no cho, encarando a realidade. Talvez tivesse ficado contente com o fato de ter seu beb aps ter passado tantas horas rodeado de crianas. Porm, qualquer que fosse o motivo para tanto entusiasmo, no fazia sentido. Talvez precisasse de um tempo para ponderar sobre o assunto e refletir melhor.
 Vou para casa, Christopher. A minha dor de cabea est muito forte.
Quando a viu dirigir-se para a porta, ele a impediu de prosseguir, estendendo o brao.
 Espere! Por favor...
Aquilo era demais. Os olhos de Annebelle se encheram de lgrimas. Estava chocada demais para conseguir dizer mais alguma coisa, e esgotada tambm.
 Perdoe-me, Annebelle. No estou me comportando direito, certo?
Annebelle, olhando para baixo, balanou a cabea.
 No chore, querida. Vou fazer o melhor que puder, prometo.
O pranto escorreu ainda mais depressa. Christopher abraou-a, tentando confort-la.
 Vou lev-la daqui.
Ela engoliu a saliva com dificuldade, procurando controlar-se.
	Sua famlia...
	Agora, voc  minha famlia, Annebelle. Deixe-me pelo menos cuidar do que  meu.
Ao ouvi-lo falar com tanto carinho o que ela queria ouvir, o choro se tornou incontrolvel. Christopher abriu a porta para que ela passasse. Annebelle no tinha foras para contestar.
Quando se viram fora da residncia, andando na direo do carro, ele voltou a falar:
	Estes dois dias devem ter sido difceis para voc, preocupada, sem saber o que fazer, no foi?
	Sim.
	No est pensando em um afastamento, est, Annebelle?
	No.
 timo!  Christopher suspirou, aliviado.  Acho que eu no suportaria.
Annebelle estava confusa. No atinava com a forma como Christopher agia. Ele parecia estar fora do ar. Deixara claro que queria a criana; no havia a menor dvida quanto a isso. Mesmo assim, Annebelle ainda tinha muitas dvidas a respeito do assunto.
 D-me a chave do automvel, Annebelle.
Chegaram  calada onde o veculo estava estacionado, prximo ao meio-fio. Annebelle abriu a bolsa e encontrou as chaves e um leno, que serviu para enxugar os olhos midos. Comeava a recobrar o controle, embora ainda estivesse muito abalada com a forma como revelara a gravidez, e sem saber como proceder dali em diante com Christopher.
  melhor eu dirigir, Annebelle.  Ele estendeu a mo.  No acho que esteja em condies de se concentrar.
Christopher estava tomando conta dela, sendo gentil. Por um momento, Annebelle sentiu-se segura. Ele no tornaria as consequncias difceis para ela. Era um homem preparado para assumir responsabilidades.
 Mas, e voc? O champanhe?  indagou, sem saber o quanto Christopher havia consumido durante o almoo.
A ltima coisa de que precisava era acabar numa delegacia por Christopher dirigir embriagado.
 No tem problema  assegurou, com um sorriso maroto.  Estou to sbrio quanto um juiz.
Annebelle respirou fundo, procurando amenizar a tenso que parecia estar presa no peito. Agradeceu aos cus por no ter de pegar no volante e por Christopher estar como sempre fora.
Apesar da enxaqueca, Annebelle decidiu que precisava conversar a respeito de alguns pontos importantes. E tambm sobre o trabalho. No havia mais como fugir da verdade, portanto, quanto mais cedo discutissem o assunto, melhor.
Christopher abriu aporta, ajudou-a a acomodar-se no banco do passageiro e foi depressa para o lado do motorista. Estavam juntos para decidir o que fariam, j que o beb era problema de ambos.
 Annebelle, antes de sairmos quero que pense no que vou lhe dizer.
Christopher a olhava, concentrado, mas Annebelle no conseguia encar-lo. Sentia-se muito vulnervel. Seria mais fcil ficar mirando adiante se tivesse de enfrentar as dificuldades daquilo que Christopher, na certa, iria dizer.
	Pode falar.
	No descarte a possibilidade de se casar comigo. Quero ser seu marido. Ento, por favor, pense com carinho na proposta enquanto a levo para o apartamento.
Christopher no esperou pela resposta, o que foi bom, porque Annebelle estava perplexa demais para falar. Deu a partida, e se puseram em movimento.
Annebelle no sentiu o percurso. Sua mente trabalhava sem parar. Como poderia considerar se casar com Christopher Carter? O que ele estava pensando? Era hora de arrumar uma esposa e famlia como todo o mundo, ainda mais agora que ela estava grvida dele? Mas existia uma atrao forte entre eles. Sendo assim, por que no?
E se tudo acabasse antes mesmo de o beb nascer? Sempre haveria outras mulheres disponveis quando Christopher se cansasse. Ser que achava que poderia engan-la, j que o conhecia to a fundo?
Era verdade que se davam muito bem, mas quanto duraria o relacionamento com presses que nunca experimentaram antes? A princpio, Annebelle teria de conviver com a infidelidade.
Era fcil para Elisabeth dizer que no era da natureza de Christopher trair algum. Sem amor, estariam traindo um ao outro, se decidissem se casar. Alm do mais, Elisabeth Carter no a aprovaria como nora, mesmo que o filho a fizesse aceitar a unio.
Annebelle no podia se deixar levar s pelo que sentia por Christopher. Sua prpria felicidade era to importante quanto a do filho.
Confusa, olhou para fora e viu que estavam perto da praia de Balmoral. Lembrou-se do dia em que Christopher a levara ali pela primeira vez e de quando contara a ele que Steve iria se casar com outra moa que estava grvida.
Gravidez... casamento.
Ser que todos os homens pensavam da mesma forma?
No. Claro que no. Se fossem to preocupados com as responsabilidades perante os filhos, no haveria mes solteiras.
Annebelle no queria ser uma delas. Esse era um caminho muito difcil. Porm, casar-se por causa de uma criana...
A imagem de uma priso escura para onde a levava o caminho mais fcil a assustou. Tornar-se dependente de algum que no queria mesmo passar o resto da vida com ela? Nada promissor.
"Ns poderamos viver bem juntos."
Annebelle passou a mo na testa. Ser que Christopher acreditava mesmo no que dissera?
	A dor de cabea piorou?  indagou ele, preocupado.
	No. Estou s tentando raciocinar.
	Deixe isso para quando chegarmos. Estamos quase l.
Precisavam conversar. Christopher era o pai da criana, e teriam de compartilhar o futuro. De alguma forma, estariam sempre prximos, ainda mais se ele mantivesse a posio de assumir a paternidade.
Christopher parou o carro na garagem. Por um momento, Annebelle estranhou, pois ele sabia qual era a vaga dela. Deixou a preocupao de lado, entretanto. Talvez o corretor tivesse lhe mostrado.
Enquanto iam para o elevador, Annebelle notou o quanto estavam fisicamente prximos. Era impressionante como ficava entregue ao poder de seduo,  sexualidade de Christopher. Se ele quisesse tomar alguma atitude...
No, ela precisava manter-se firme e afastada.
Christopher entregou a Annebelle a chave do automvel. Ela pegou-a, evitando qualquer contato, o que o deixou um pouco surpreso, mas nada comentou.
A tenso de Annebelle aumentava a cada minuto, enquanto se aproximavam do apartamento. Por sorte, Christopher teve o bom senso de no toc-la.
Quando a porta foi aberta, Christopher fez sinal para que ela entrasse primeiro. Annebelle obedeceu, e ele seguiu-a, mantendo distncia, dando chance para que Annebelle estabelecesse uma distncia confortvel.
Ela deixou a bolsa no balco da cozinha e foi at a sala, para abrir as portas da varanda.
No instante em que bateu no rosto dela, o ar fresco vindo do mar causou um alvio imediato na angstia que sentia. At a enxaqueca ficou mais fraca. Se conseguisse manter-se calma para lidar com Christopher de forma sensata, talvez conseguissem chegar a um acordo bom para todos.
	Quer tomar alguma coisa, Annebelle? Posso fazer um ch ou...
	No, obrigada.
A voz dele vinha da cozinha. Talvez Christopher tivesse parado prximo o suficiente para observ-la.
Annebelle respirou fundo e virou-se para ele, forando um sorriso irnico para diminuir a preocupao evidente de Christopher. Ele estava atrs do balco, com as mos apoiadas sobre o tampo, disposto a atender a qualquer necessidade que ela pudesse ter.
Porm, mostrava-se to nervoso quanto Annebelle. Isso ficava evidente pelos ombros e msculos faciais tensos, as sobrancelhas mais unidas e o olhar mais estreito.
	Obrigada. Acho que meu estmago no aceitaria nada agora. No estava preparada para tudo isso, Christopher. Refiro-me a contar para voc assim.
	Foi melhor, Annebelle. Ficou tudo claro de uma vez.
	Sim, mas no tive a inteno de estragar seu Natal com sua famlia. S queria ver...  Annebelle parou de falar. Era difcil descrever as mudanas de seus sentimentos.
	Como seria se fizesse parte dela?  A rpida percepo de Christopher a pegou de surpresa.
	No posso me casar com voc! Christopher franziu a testa.
	Por causa deles?
 No... No.  Annebelle condenou-se por ter tido to pouco tato quanto  me dele, algumas horas antes.  Seu pessoal  maravilhoso. Deve ser timo fazer parte daquele crculo, onde h tanto afeto. Por voc, por eles, por todos.
Annebelle se deu conta de que falava aos trambolhes.
Parou e tornou a respirar fundo. O corao batia disparado. No conseguia manter os pensamentos coerentes.
	No h razo para no fazer parte dela, Annebelle.  Christopher estava srio.  E nosso filho com certeza far, de forma to natural como as outras crianas. Voc conheceu Tess, Grace e Martin, hoje. Deve ter visto como eles...
	Por favor...  interrompeu-o, meneando as mos.  No  esse o ponto, Christopher.
	Ento qual ?
	No vou conviver com eles todos os dias, e sim, com voc.
	E ento?
Viver com outra pessoa no era fcil. Annebelle sabia pela experincia que tivera com Steve. Com amor era complicado fazer os ajustes, lidar com os compromissos e direitos. Sem amor ento... E ainda estaria preocupada com outras mulheres bonitas e disponveis.
	No posso casar-me, Christopher.
	Por que no?
Aquele tormento precisava terminar. Annebelle no estava suportando a angstia e tenso. Olhou para ele, desanimada, negando qualquer vontade de persistir no assunto.
 Eu no te amo.
Christopher pareceu petrificado. Ficou confuso, e a expresso do olhar mudou, embora ainda a encarasse, concentrando toda a energia e fora de vontade para conseguir decifrar o que estava acontecendo.
Annebelle no o reconheceu. Por alguns segundos, Christopher pareceu ser um estranho.
Quando ele falou, Annebelle chegou a assustar-se:
	Mas existem os casamentos por convenincia. Acredito que possa dar certo.
	No serei uma esposa conveniente. Essa soluo pode agradar e ser boa para voc e sua vida, mas no me vejo como uma mulher submissa.  Annebelle estava furiosa. Jamais cogitara tal possibilidade.
	Submissa?  O tom de Christopher indicava indignao. Sem acreditar no que ouvia, continuou:  Desde quando deixei de considerar seus desejos? Passo a maior parte de meu tempo colocando suas necessidades acima das minhas prprias. Ser que no consegue nem por um instante ser justa, Annebelle?
Ela ficou envergonhada, incapaz de citar um s exemplo de falta de considerao da parte dele. Alm disso, Christopher tambm tinha sido muito prestativo desde que Steve a deixara.
A imagem do casamento dos pais de Annebelle veio-lhe  memria. A me servindo o pai, um verdadeiro tirano, que a tratava como uma escrava. Mas nada daquilo podia ser relacionado a Christopher. Ele era um homem generoso, sensvel e sempre disposto a divertir os outros.
	Quero um casamento onde ambos dividam tudo, Annebelle. Ns conseguiremos fazer isso.
	E devo dividi-lo com todas as garotas com quem costuma sair?
	Agora chega! Isso j  demais!
Christopher bateu a mo sobre o tampo, permitindo que lhe aflorasse a frustrao que tentara reprimir com tanto esforo.
Annebelle encostou-se na porta, irritada consigo mesmo por ter se deixado intimidar.
	No gosta de ouvir a verdade, Christopher?  desafiou, erguendo o queixo, provocando-o.
	Ento  a verdade o que quer?  o que ter: a culpa do alto nmero de mulheres em minha vida  sua!
	Minha?!
	Sim, sua!  Christopher ergueu o indicador em riste.  Aceite o fato, em vez de culpar-me por no conseguir ficar muito tempo com algum.
	E como posso ser culpada disso?
	Ns nos damos muito bem, existe uma atrao fortssima entre ns, e no adianta negar, Annebelle.  mais forte que qualquer coisa que senti por outra moa com quem tentei me relacionar. E fiz isso porque voc se mostrou inacessvel para mim, e era intil esperar por algo que jamais se concretizaria.
A paixo transparente na voz de Christopher deixou-a sem palavras.
 Voc fez tudo para bloquear essa atrao natural que sempre houve entre ns. E, depois desses dois anos, isso tornou-se um hbito, no ? "Mantenha distncia de Christopher. No o deixe aproximar-se, porque podem perder o controle." No  assim que pensa?
O orgulho ferido tornou a expresso de Christopher mais dura.
 E foi o que aconteceu, Annebelle. A noite em que fizemos o beb foi maravilhosa, maior do que tudo o que j tive em minha existncia. E sou capaz de apostar que foi assim para voc tambm.
Os lbios de Christopher formaram um sorriso amargurado.
 Dois anos perdidos, enquanto eu era tolo o bastante para respeitar seu compromisso com um homem que acabou por tra-la. Dois anos... e agora quer estragar tudo por bobagem.
Christopher no estava disposto a calar-se.
 "D mais tempo a ela", dizia a mim mesmo. "Annebelle ainda est se recuperando do que passou com aquele bastardo. Conseguir conquist-la, Christopher." Que tolo eu fui!  exclamou, jogando a cabea para trs.  Voc no estava preparada nem para me dar uma chance pelo bem de nosso filho!
Toda aquela revelao era to devastadora que Annebelle no pde fazer nada a no ser ouvir. Uma cortina parecia se abrir sobre seus olhos, forando-a a reconhecer e ter uma percepo diferente de tudo por que passara e pelo que estava vivendo. O pior era que Christopher tinha razo.
Steve fora usado como uma barreira de proteo contra Christopher, e isso Annebelle no podia negar, se quisesse ser honesta.
Uma vez que no existia mais esse impedimento...
Lembrou-se de Christopher conversando com Joshua depois que soubera que Steve era carta fora do baralho: "Annebelle est como queremos... Bem, no exatamente". E mais tarde assegurando que estaria ao lado dela sempre que fosse preciso, pois poderia contar com ele.
A atitude de Ruth referindo-se a Annebelle como a Mulher Maravilha de Christopher. E da me dizendo que o filho falava muito a seu respeito. E todos contando que s ela fora levada para passar o Natal com a famlia.
Annebelle recordou a noite em que ficaram juntos, com Christopher pedindo para que no esquecesse, que tivesse uma lembrana nica e especial. Ao rever tudo, percebeu o quanto havia se enganado, como se escondera da verdade que ele a obrigou a aceitar naquele momento.
Annebelle viu a raiva e a paixo dando lugar  tristeza nas lindas feies de Christopher, e constatou que estava procurando a prpria infelicidade.
 Um dia, Annebelle, voc ter de explicar a nosso filho, ou filha, por que no quis se casar comigo. Se continuar a mentir para si mesma, no poderei fazer nada, mas no minta para a criana sobre mim. Isso eu no mereo.
O corao de Annebelle se confrangeu. Tinha cometido muitas injustias com Christopher.
E por qu? Para assegurar-se de que estava protegida contra seus impulsos naturais e instintos?
Christopher era um homem nico. Muito melhor do que Steve. Annebelle sempre soubera disso, mas achava que no conseguiria lidar com o risco de se relacionar com ele. Era bonito demais, muito atraente e disputado. No se achava boa o bastante para ficar com algo to bom.
Era o que o pai sempre lhe dizia. Ento, Annebelle aprendera a se contentar com pouco, escolher o que era mais seguro, e dizia a si mesma que era a atitude mais sensata.
Christopher saiu de trs do balco. Parecia ainda mais forte e alto. Ali estava um rapaz que lutara e perdera o que queria, mas que mantinha dignidade e coragem, e continuava acreditando em si.
 Pea o que quiser de mim, e eu o farei, Annebelle.
Porm, gostaria que pensasse mais alguns dias na questo. Quando voltar a trabalhar, ouvirei seus planos. Agora no estou com a menor vontade de escut-la. Se me der licena...
Sem esperar, Christopher saiu da cozinha e dirigiu-se para a sada.
Por alguns segundos, Annebelle ficou paralisada. Porm, o barulho da maaneta a fez sair do transe.
 Espere!  A voz saiu fraca. Decidiu correr atrs dele, gritando, desesperada:  Christopher, oua, por favor!
Ele estava em p no pequeno hall, de costas para ela. Os ombros largos formavam uma verdadeira barreira, mas estava atento. Esperava para saber o que Annebelle tinha a dizer.
 O que foi?  perguntou, impaciente com o silncio dela.
O que poderia dizer? Annebelle s sabia que deveria impedi-lo de se afastar para sempre. Foi ento que as palavras vieram:
 Vou me casar com voc. Se ainda me quiser.

CAPTULO XVII

Christopher respirou fundo. Annebelle ficou apreensiva ao ver os ombros fortes subirem e depois relaxarem. No tinha noo do que aquela reao significava. Ele se virou, devagar. Annebelle conteve a respirao. Christopher olhou para ela como se no a conhecesse.
	Por que, Annebelle?
	Porque...
Annebelle tinha cometido tantos erros que era difcil explicar-se. O estmago parecia estar contrado, o corao, apertado diante do pnico e do medo de perd-lo. E decidiu comear a falar antes que fosse tarde demais:
 O que disse  verdade, Christopher. Menti para mim mesma para justificar meu medo de voc. Para impedi-lo de se aproximar de mim.
Christopher a observava, impiedoso.
 Isso no torna o casamento desejvel e bom para nenhum de ns dois.
Annebelle movia as mos, desesperada.
	No sei como lhe explicar tudo.
	Tente!  Christopher queria compreender, precisava saber de tudo, embora estivesse ainda magoado.
Annebelle no sabia por onde comear ou como faz-lo compreender que ela s vira a realidade quando ele a mostrara.
	No h como voltar atrs agora, Annebelle.
	Uma vez voc fez perguntas sobre minha famlia. Eu no contei tudo.
Christopher no se controlava mais:
	O que ela tem a ver conosco? Alm do mais, disse que est afastada deles h anos.
	Calma.  Estava ansiosa para manter a ateno de Christopher.  Pela forma como foi criado, no pode imaginar como foi minha infncia... Havia constante abuso emocional da parte de meu pai. Eu precisava aceitar tudo para no ser aniquilada. Quando sa de casa, aos dezesseis anos, jurei nunca mais deixar que ningum tivesse controle sobre mim de novo.
	Espera que eu aceite isso, depois de tudo o que sofreu com seu ex-namorado? Foram cinco anos de nada? No houve sentimento?  o que est querendo me dizer?
	No  assim!
	Nada disso faz sentido para mim, Annebelle.
	Com Steve... Nunca pensamos em nos casar. Ele dizia que ramos espritos livres. Eu me sentia... segura... com ele.
	Segura!
	Sim. Mas, se no quer me ouvir, ento v embora  desafiou, arriscando tudo o que tinha em mos.
	Ah, eu no perderia essa histria por nada! Vamos, continue.
Annebelle fez uma pausa e respirou fundo para acalmar-se. A cabea parecia querer estourar. No havia como escapar daquele sofrimento. Precisava enfrentar a realidade, e depois a escolha do que fazer seria de Christopher.
 Se quer me compreender, em vez de julgar-me, oua-me, Christopher. Pelo menos, tente, pelo bem de nosso filho.
A meno ao beb o fez recuar e perder a expresso irnica, mas continuou frio e distante.
 Estou escutando.
Annebelle no tinha como recuar, e estava determinada a revelar os fatos, quaisquer que fossem as consequncias.
 Voltando a meu relacionamento com Steve... Ele tambm veio de uma famlia desfeita. Isso afeta as pessoas, Christopher. Acabamos sempre precisando de algum, ningum gosta de ficar sozinho, mas no queremos pertencer ao outro, porque  algo ameaador.
Christopher ergueu as sobrancelhas, absorvendo o que ela dizia. Encorajada, Annebelle procurou atingir o ponto mais importante:
 Voc ameaou esse meu lado que luta por segurana.
Christopher assustou-se. Inclinou a cabea para o lado, considerando a nova perspectiva. O olhar ainda era reservado, mas atento.
 Voc tem o poder de me abalar, mesmo quando procuro defender-me. Acho que usei Steve para no deix-lo aproximar-se, para eu no ter como aceitar o desafio.
Christopher meneou a cabea, como se no aceitasse o que estava ouvindo.
	Pode chamar-me de covarde, se quiser.
	No. Voc permaneceu a meu lado, Annebelle, trabalhando comigo.
	Isso no era um ato de coragem. Era a nica forma de manter o controle. Porm, me deixei envolver e me rendi na noite em que veio aqui. Depois, fiz tudo para voltar a meu normal, lutar contra essa fora que nos une, e no queria escut-lo. No podia deixar-me seduzir por seu poder de... virar minha vida do avesso e deix-lo fazer o que quisesse comigo.
Christopher parecia ter sido tocado com a histria.
	Annebelle, voc sempre foi respeitada. Sempre considerei suas vontades. Jamais a sufocaria  argumentou, negando o papel dominador que lhe era atribudo.
	Agora percebo tudo isso. Porm, antes eu tinha muito medo para aceitar o que existia entre ns. Empenhei-me em mant-lo afastado, tentando proteger-me. Fiz de tudo para acreditar que o que houve aquela noite aqui foi apenas uma "combusto espontnea". Era uma desculpa.
	E nosso filho?  Christopher interrompeu-a, nervoso e confuso.  O beb que fizemos? O futuro... ser que no merece uma chance?
	Tive muito receio de tudo isso tambm, tentei nem pensar a respeito.
	Mas quer o nen, no quer? Voc disse que... ou melhor, assegurou que no...
 Eu no estava cogitando interromper a gravidez. Christopher, seu poder sobre mim deixa tudo confuso. No pensei na criana como minha, e sim, como um lao entre ns. Fiquei em dvida entre desejar esta ligao com voc e as consequncias de tudo em meu destino.
	Teve medo... de se casar comigo?  Ele estava perplexo com o que ouvira.
	Tive. No tenho mais. No percebe? No h outra soluo, por causa do beb. Preciso correr o risco. Se voc me magoar... Tudo funciona como uma armadilha. No posso deix-lo ir embora, mesmo sabendo que pode me machucar at mais do que meu pai. Muito mais.
	Mas voc tambm pode fazer o mesmo comigo, Annebelle. Ser que no percebe?
Annebelle ficou surpresa. No tinha se colocado na posio dele, e percebeu o quanto o havia feito sofrer, o quanto Christopher sofria por sua rejeio.
 Ns dois corremos riscos, e cabe a ambos no abusar da ascendncia que temos um sobre o outro.  Christopher procurava convenc-la de que estava errada.
Annebelle passou a mo na testa, e depois colocou-a sobre a barriga.
	No sei o que fazer. O beb... Para mim ainda  muito irreal v-lo como meu. Talvez eu no seja do tipo maternal. Tive vontade de fazer parte de sua famlia, mas acho que no sei ser me. A minha... Mame tinha muito medo de meu pai para nos defender ou cuidar de ns.
	O problema  o amor, que tem de ser dado de forma natural e espontnea. Talvez sua me no tenha tido liberdade para se doar, mas esse no  seu caso. No a sufocarei, querida, e ter plena liberdade para amar nosso filho.
 De forma natural e espontnea.
Christopher tinha dito isso na ocasio em que ficaram juntos. Annebelle desejou poder sentir-se bem, pois o casamento no era uma brincadeira maldosa do destino. Tinha necessidade de se sentir feliz, mas no conseguia.
Christopher ainda no sabia o que precisava saber, e Annebelle necessitava continuar. No haveria mais mentiras e evasivas.
 Eu o quero demais, Christopher. Faz anos. Cheguei a dizer que no queria ir para a cama com voc, mas era outra mentira. Afirmei isso porque no queria que soubesse o quanto sonhava em ficar a seu lado, o quanto queria fazer amor com voc, ficar a seu...
Annebelle no viu reao alguma. Christopher estava paralisado. Ela no saberia dizer se a ouvia ou se no acreditava em nada. Teve vontade de correr para abra-lo e convenc-lo de que falava a verdade, mas se conteve.
	Hoje, quando me beijou sob o arranjo de Natal, tentei acreditar que aquela sensao de felicidade duraria para sempre. No entanto, mais uma vez, tive receio. E em seguida voc disse que tinha sido apenas um beijo desejando feliz Natal.
	Nada disso. Eu disse que um homem deve beijar a mulher que est sob o arranjo para dar sorte.
	Ento, fiz confuso e interpretei mal isso tambm. Acho que fiz tudo errado, e por isso consegui fazer com que no acredite no que sinto.
	E o que sente?
	Eu te amo, Christopher.
Era verdade. Annebelle amava tudo o que dizia respeito a ele, tanto que chegava a sofrer. O corao sangrava de dor, porque, apesar de tudo o que Christopher dissera, no mencionara amor. E no diria que a amava agora.
Christopher no se movia. Encarava-a com o olhar fixo. Talvez no a amasse mesmo e estivesse chocado com a confisso de Annebelle. Afinal, poderia estar irritado com o fato de ter sido rejeitado, mas no por no ser amado.
Por que ela chegara a pensar na possibilidade de haver um envolvimento emocional? Por que precisava demais do amor de Christopher.
No poderia casar-se sem ele.
	Christopher...  O nome dele escapou numa voz rouca. Agitada, engoliu seco e ergueu as mos em um ltimo apelo.  Se no me ama, no posso aceitar...
	Eu te amo. Mais que tudo neste mundo!
Antes que Annebelle pudesse respirar, viu-se sendo abraada to forte que sentiu os coraes batendo juntos. Enlaou o pescoo de Christopher e encostou o rosto no ombro largo. Viu, ento, toda a ansiedade e o nervosismo se transformarem em tranquilidade e satisfao.
Christopher a tomara de volta. Sentia-se segura. Estavam juntos de novo.
Com carinho, ele encostou a face nos cabelos de Annebelle.
 No me assuste mais. Nunca mais, Annebelle. Tente abrir seu ntimo para mim, vou escut-la sempre. Precisamos resolver tudo juntos.  assim que tem de ser.
Christopher a perdoara. Annebelle no conseguia descrever a sensao de alvio que a dominava.
 Talvez eu devesse ter tomado a iniciativa em vez de ter esperado tanto, querida. Acho que ns dois tentamos nos defender demais contra o sofrimento. Voc passou tanto tempo com Steve... Temi que no o tivesse esquecido. Queria v-la livre dele, sem a menor sombra de dvida, para poder dizer o que eu sentia.
Como Annebelle poderia culp-lo?
Christopher suspirou. O ar quente lhe acariciou a orelha.
 Eu te amo h muito tempo, Annebelle. Nem sei mais como  viver sem esse sentimento.
Ele a amava!
No era s por causa do beb, nem pura atrao fsica. Era amor de verdade.
Uma forte e maravilhosa onda de energia dominou Annebelle, que ergueu a cabea. Queria e precisava ver aquele olhar a que estava to acostumada. No poderia haver erros dessa vez. Ao se fitarem, um pareceu estar descobrindo um novo mundo, cheio de felicidade.
	E preciso de seu amor sem ter de brigar por ele. Quero t-lo, mas com espontaneidade. Compreende, Annebelle?
	Sim.  E, sem hesitar, ficou na ponta dos ps, puxou devagar a cabea dele para baixo e beijou-o com toda a paixo contida havia anos.
No sentia mais medo, nem a menor desconfiana. Christopher a amava, e ela a ele. E o beb tornara a ligao ainda mais forte.
Annebelle levou-o para a cama, mostrando a Christopher que aquela era sua escolha, seu desejo. Queria tudo de forma honesta, e fizeram amor por muito tempo.
No havia necessidade de parar, e aproveitaram para aprender e experimentar tudo um com o outro. Tocaram-se sem inibies.
Christopher era um homem magnfico, de todas as maneiras. Annebelle o adorava, e era correspondida. Tinham uma sintonia perfeita, sexual e emocional.
Quando Christopher lhe tocou a barriga, com incrvel delicadeza, com os olhos demonstrando felicidade infinita diante do fato de ela estar carregando seu filho, Annebelle percebeu que ambos estavam libertos. Juntos dariam  criana muito amor e formariam uma famlia.
Annebelle, enfim, acreditou no futuro, que prometia ser glorioso.
Porm...
	Christopher!  Tomada por uma repentina agitao, ergueu a cabea.
	O que foi?  Sorriu, provocante.
	Sua me! Ela no gostou de mim. No aprovar nossa unio.
	Ah!  Christopher fitou-a, srio e curioso.  Suspeitei que algo tinha acontecido entre vocs, hoje  tarde. O que foi?
Annebelle ergueu as sobrancelhas ao comear a falar sobre o desagradvel encontro.
	A sra. Carter acha que no sou apropriada para voc. Parece que, segundo seus parmetros, sou muito avanada, por ter morado com Steve sem me casar. Ela disse que minha me deveria ter me ensinado que no era certo uma mulher viver assim com um homem.
	Mame falou bobagem, Annebelle. Podemos dar um jeito nisso.
	No, Christopher. A sra. Carter disse isso como se tivesse me dado um aviso para eu no me aproximar de voc.
	No, bobinha. Mame s estava dizendo que no queria v-la morando comigo sem nos casarmos. Ficou furiosa quando lhe dei o apartamento.
	O qu?!
	Hum...  Christopher olhou para o teto. Havia se trado.  Cometi um erro ao mentir para voc, no ? Mas minha inteno foi a melhor, querida.
	Este apartamento  seu?  Annebelle ainda tentava compreender.
A decorao, as cores, a vaga na garagem...
	Eu s queria que no tivesse recordaes de Steve, ento combinei tudo com Ted Durkin e...
	Voc criou todas aquelas condies do contrato?
	Foi a forma que encontrei para convenc-la a aceitar.
	E Ted Durkin sabia de tudo?
	Ele me ajudou a inventar toda a histria.
	Oh!  Annebelle no sabia se deveria sentir-se ultrajada ou lisonjeada por ele ter tido tanta preocupao.
	De qualquer forma, mame tinha medo de que eu a instalasse aqui e que passssemos a viver juntos como amantes. Mas, Annebelle, no foi minha inteno, juro. Sempre quis me casar com voc.
Annebelle achou graa, lembrando-se de repente de outra coisa.
	Estou onde voc queria?  perguntou, referindo-se  frase que o ouvira dizer quando conversava com Joshua no escritrio.
	Acertou na mosca!
Annebelle riu ainda mais de todas as dvidas que tivera no passado.
	Minha me achou que, por voc ter vivido com Steve, poderia querer viver comigo tambm. Ento, tentou adverti-la. Mame no consegue ficar fora do controle da vida dos filhos.  Suspirou.
	Acho que fui um pouco dura com ela, Christopher, falando sobre voc e suas namoradas. Desculpe-me, mas...  Annebelle fechou os olhos, arrependida.  Acho mesmo que fui rude, quando ela procurava defend-lo.
	Tudo bem, meu anjo. E pode deixar: vou dar um jeito em tudo.
A confiana de Christopher lhe agradou. Determinado, inclinou-se, pegou o telefone da mesa-de-cabeceira e discou.
 Ruth? Sou eu. Mame ainda est a?
Pela expresso, Annebelle percebeu que a irm dizia algo.
	Deixe isso para l. Chame a mame para mim.  Virou-se para Annebelle.  Ruth est eufrica por nos ter visto nos beijando. Ela sabe o que sinto por voc.
	Todos sabem?
	Mais ou menos. No sou muito bom para esconder algo dos meus queridos.
Ento Christopher, dali em diante, no conseguiria esconder dela tambm, concluiu, satisfeita.
Lembrou-se de Steve, que nada contava e fazia questo de manter tudo s para si. Christopher era muito diferente. Graas a Deus!
 Me?
Pelo jeito, Elisabeth estava se explicando. Naquela famlia, todos pareciam gostar de conversar, o que era timo. Nada de represses ou mal-estar.
 No. No estragou nada, mame. Na verdade, as coisas no podiam estar melhores. Annebelle me ama e quer se casar comigo. Porm, acha que voc no gosta dela.
Christopher tapou o bocal e falou com Annebelle:
 Mame sente muito por ter passado uma impresso errada. Ela achou voc linda, e cr que temos tudo para viver bem. Para desculpar-se, ela a est convidando para o almoo de amanh. Assim, poder mostrar o quanto est feliz com nossa deciso. Est bem para voc, querida?
Annebelle assentiu.
 Sim, mame  continuou ele, ao telefone.  Estaremos a.
Depois, despediu-se, colocou o fone no gancho e sorriu.
 Este foi o melhor Natal de minha vida, Annebelle.
 O meu tambm.
Christopher puxou-a e beijou-a.
Annebelle aconchegou-se, provocando-o, desejando senti-lo por inteiro mais uma vez. No Christopher, o sedutor, mas o homem que amava, o seu Christopher. Sentia-se radiante com a idia de pertencer a ele e  famlia dele.
No ficaria mais sozinha. Estariam sempre juntos. Christopher, Annebelle e o beb.
Era o milagre do amor!

CAPTULO XVIII

Ano-novo... Annebelle olhava o Free Spirit deslizando na gua do cais. Era um belo iate, longo, luxuoso, com linhas modernas.
Murmrios animados envolviam o grupo seleto de clientes de Christopher que esperavam para embarcar.
Free Spirit: esprito livre. O nome a fez lembrar-se de Steve e de sua noiva. Eles iriam se casar naquela noite, mas o fato no entristecia mais Annebelle. No havia mais razo.
Teria momentos maravilhosos com Christopher, e para toda uma vida. Alm do mais, sentia-se mais livre do que nunca, ao lado dele.
Os homens do grupo usavam trajes mais formais, o que dava estilo e classe  festa. Annebelle sentiu orgulho ao concluir que nenhum deles era to bonito quanto Christopher.
No estava mais insegura. Tinha a certeza de que o noivo s tinha olhos para ela, mesmo estando rodeado de lindas e sofisticadas garotas.
Satisfeita e feliz, riu de si mesma. Recordou a manchete da revista com o artigo sobre mulheres tradas, ainda guardada na gaveta da mesa do escritrio. Christopher acreditava no casamento. Ficariam unidos na alegria e na tristeza, at que a morte os separasse.
Depois do Natal, Annebelle aprendera ainda mais sobre a famlia de Christopher, e todos acreditavam que um bom matrimnio e filhos eram uma ddiva, uma bno de Deus.
Ningum disse uma s palavra negativa quando Christopher anunciou a chegada do beb. Ao contrrio, expresses de contentamento, alegria, ofertas de ajuda e cumprimentos foi o que Annebelle ouviu. E Elisabeth Carter estava eufrica e radiante com os preparativos da cerimnia.
Annebelle achou graa da primeira impresso que tivera da sogra. Enganara-se redondamente. Elisabeth era uma pessoa generosa, desejava o bem de todos e se preocupava com a famlia. O sr. Carter era mais otimista, confiava mais nos filhos. Achava que eles eram capazes de trilhar seus prprios caminhos. Annebelle gostava muito dele.
Quando o iate ancorou e dois ajudantes colocaram as rampas de embarque, Christopher passou o brao sobre o ombro de Annebelle e sorriu.
	Est pronta para recepcion-los?
	Estou.
	Mas no precisa, se no quiser. Contratei um pessoal para fazer tudo o que for necessrio.
	Mas voc disse que...
	Precisava de uma desculpa para traz-la neste cruzeiro  confessou, com ar maroto.  Era meu plano de seduo. E no vi razo para mud-lo.
Annebelle riu muito e abraou-o mais forte ao embarcarem.
	Sabe, Annebelle, voc fica deslumbrante, de vermelho, mas esse azul que est usando a deixa ainda mais bonita.
	Gosta mesmo desta roupa?  Annebelle usava um longo azul-marinho com detalhes em renda.
	Est dando um toque especial ao evento, querida.
 Hum... continue com essa conversa sedutora e... sabe onde vai parar?
Christopher deu uma gargalhada. Ambos irradiavam bom humor.
Passaram pelos degraus que dava para o deque, onde havia mesas, cadeiras e um bar.
Duas garonetes os conduziram para uma mesa toda arrumada e servida de vinho, cerveja, sucos de frutas e gua gelada.
	Champanhe, senhor?  perguntou uma delas a Christopher, admirando-o.
	Duas taas, por favor.
Christopher no demonstrava interesse algum por outra garota, observou Annebelle. No existia mesmo razo para se desejar outra pessoa se o relacionamento era completo, e o sentimento, recproco.
Dirigiram-se  porta que os levou para o salo, prontos para cumprimentar a todos que encontravam no caminho.
No salo, viam-se sofs muito bem estofados, rodeados por mesinhas de caf com tampos de mrmore decoradas com arranjos florais. Mais  frente, ficava a sala de jantar, em tons de cinza, com cadeiras de couro preto.
No andar de baixo, encontravam-se as sutes, todas tambm muito bem decoradas. Na parte da frente, uma piscina, de onde era possvel ver a ponte e o cais da cidade.
Annebelle sabia de todos os dados sobre o navio, para o caso de algum ter alguma dvida. A maioria dos presentes queria ver tudo, mesmo aps as explicaes.
 Christopher, querido!
Annebelle olhou para trs, interrompendo a conversa com um casal, e viu a jovem que encontraram no restaurante no dia em que saram para jantar. L estava ela, Isabella Maddison, com suas unhas vermelhas sobre o ombro de Christopher.
Ao ver Annebelle aproximar-se e parar ao lado de Christopher, seus olhos verdes pareceram destilar veneno.
	Oh! Vejo que j tem companhia.
	Mais do que isso, Isabella.  Christopher enlaou Annebelle com um sorriso amvel e carinhoso, dizendo:  Esta  minha noiva. Enfim, Annebelle concordou em se casar comigo.
	"Enfim"?!  repetiu Isabella, chocada.
	Sim.  Annebelle ergueu a mo direita, que levava um magnfico solitrio de brilhante que Christopher lhe dera. O anel brilhou sob o olhar inconformado de Isabella.  Decidi que era hora de formarmos uma famlia.
	Bem... Meus parabns...
 Voc pode servir-se de champanhe  sugeriu Annebelle, educada.  Neste cruzeiro, todos devem se divertir.
Sim, obrigada.
Ao se ver sozinha com Christopher, Annebelle no conteve o riso. A expresso dele deixava claro que percebera tudo.
	Voc ficou com cime dela naquele dia, no restaurante.
	Imagine! Tive apenas vontade de estrangul-la.
	Eu deveria t-la levado para a cama naquela tarde, meu bem.
	Mas pode fazer isso hoje, querido.
 Pode apostar que sim! E no vai demorar muito.
Annebelle o desejava tanto que mal conseguiu saborear a comida que era servida pelas garonetes. Experimentou tudo, mas no prestou ateno a nada. S pensava em ficar com Christopher.
A noite estava estrelada. Havia s uma leve brisa batendo na gua, mas o calor do dia no tornava o ar frio.
O cais estava repleto de iates, embarcaes menores e navios que vinham de outros lugares do mundo.
As pessoas todas procuravam lugares privilegiados para assistir  virada do ano e ao espetculo da queima de fogos. Parecia que toda a cidade de Sydney tinha sado de casa para celebrar o ano-novo.
O capito posicionou o Free Spirit perto de Fort Denison, dando vista para a Opera House e a ponte.
Por volta de meia-noite, todos a bordo do iate foram para o deque, inclusive Christopher e Annebelle.
Ela encostou-se na borda de proteo, e Christopher abraou-a por trs, deixando-a sentir a reao dos corpos juntos e excitando-se com o contato. Desejaram estar a ss para que no precisassem conter a volpia.
Todos olhavam para o cu, esperando que as luzes iluminassem a escurido.
Foi quando comeou a queima de fogos no suporte da ponte. Luzes espocavam, de todas as cores e diferentes efeitos. Era uma chuva de brilho deixando as pessoas sem fala diante da cena.
	No que est pensando?  murmurou Christopher ao ouvido de Annebelle.
	Em nossa noite de npcias. Como ser? O que sentirei?
	Como imagina que venha a ser?
	Assim, Christopher. Estarei feliz como hoje.
	Eu tambm.  Beijou-a no rosto.  Ser um dia maravilhoso, como o de hoje.
Annebelle estava exultante. Tinha o homem que amava e esperava um filho dele.
Sorriu, contente. Era uma mulher realizada.

Fim













DICAS

Meu mdico disse que, para controlar a presso arterial, preciso evitar o estresse. Como posso fazer isso, porm, se meu trabalho  muito cansativo e obriga a esforo mental constante?
Embora no exista comprovao cientfica, os mdicos dispem de um nmero cada vez maior de indicaes no sentido de que o estresse pode provocar hipertenso e de que, por outro lado, evitar o estresse ajuda a normalizar a presso. Assim,  perfeitamente razovel que seu mdico lhe tenha recomendado procurar diminuir o nvel de estresse de sua vida. O simples fato de identificar os tipos de estresse a que voc est sujeita em sua atividade diria j  um avano no processo de controle das tenses, mas convm voc procurar alguma tcnica que a ensine a relaxar. Certos exerccios respiratrios, como os de ioga, por exemplo, podem ser de grande valia nesses casos.

Tomo remdios para baixar minha presso, mas li em uma revista que eles provocam mudanas na personalidade. Isso  verdade?
Em parte. Algumas das primeiras drogas usadas para diminuir a presso arterial sem dvida eram capazes de afetar o nimo da pessoa, provocando depresso. Por esse motivo, esses medicamentos vm sendo substitudos por outros com menos efeitos colaterais. Os betabloqueadores, que controlam a secreo de adrenalina, podem afetar o nimo. Alguns pacientes temem que o bloqueio da adrenalina no corpo os faa perder sua disposio e iniciativa, mas geralmente isso no ocorre. Os betabloqueadores simplesmente reduzem o nvel excessivo de adrenalina no corao e na circulao, mas eles certamente no so depressores.

EMMA DARCY foi professora de ingls, francs e computao antes de se casar e ter filhos.
Morando com a famlia em sua comunidade, dedicou-se  pintura e  decorao de algumas casas enquanto cuidava dos trs filhos e participava da vida social com o marido Frank. Sempre gostou muito de falar com as pessoas e foi a que encontrou o ambiente para dedicar-se aos romances de fico, onde criava os prprios personagens. Ela gosta de viajar e suas experincias em geral aparecem nos livros. Emma Darcy mora em New South Wales, na Austrlia.
